51 - VALE A PENA LUTAR?


 
- Não me posso desconcentrar, Marília. De nada vale tentar fugir ao problema... É a doença que no final acaba sempre por vencer, sempre, e nenhum impulso ou sacrifício, nenhuma compaixão ou piedade me trarão de volta a saúde. O povo habituou-se a dizer que são os bons que Deus leva consigo primeiro, mas eu não sou bom, nunca fui, pois se apenas servi pratos de mentiras acompanhadas de muita ironia!
Marília sabe o quão estúpido acaba por ser este dever que lhe tem dominado a vida. Decidiu visitar-me quase todos os dias, e passamos as horas absorvidos com coisas tão inúteis.
- Jamais imaginei que acabássemos os dois assim, Marília. Naqueles tempos em que dominavas o mundo, e eu observava tudo do alto dos telhados, tinha inveja da tua alegria. Odiei-te, cheguei mesmo a odiar-te porque valias bem mais do que eu. Agora odeio-te porque acho que não deves estar aqui a consumir-te com a minha ruína.
- Cala-te, Perpétuo! Cada um faz com o tempo aquilo que quer. Não tenhas pressa, promete-me. Como compensação, podias ao menos parar de dizer disparates. Há quantos anos sabes que eu sem ti não existia? Se desapareceres, restar-me-á somente o medo e o vazio. É tudo uma questão de tempo, maninho, por favor, não tenhas pressa.
Não sou capaz de arrancar a minha máscara. Marília cresceu esta mulher honesta com um dever a cumprir. Sou um fardo, estou cansado, estou tão doente, só sirvo para vociferar bestialidades à única mulher que amo. Seria muito mais lógico, muito mais cómodo, oferecer-lhe de volta a liberdade, mas de alguma forma ainda me mantenho agarrado à vida através de uma quantidade de ideias absurdas.
- Nenhum de nós acredita nas palavras dos médicos, esses charlatães,… e se eu abrisse as portas do reino dos céus? Seria um ato de amor, e tudo se resolveria num único esplêndido minuto...
O esforço de Marília parece-me em vão — e ela, para não pensar mais, mergulha os olhos na literatura dos remédios e das pílulas e desta espécie de poção mágica, afunda-se ainda mais nas florestas de papéis de letras miudinhas que não conseguem aplacar-lhe o medo do futuro ­— como foi possível a vida ter-nos roubado o sol com tamanha rapidez?
- Tens de continuar a lutar, Perpétuo! Às vezes acho que tu só queres é fugir de ti próprio. Aprendeste a fazê-lo à custa das tuas belas mentiras, como gostas de chamar aos teus livros. Mentiras tão esforçadas como gloriosas, mentiras desesperadas. Tenta agora manter-te dentro dessa tua fórmula para te salvares, escolhe uma máscara capaz de arredar de nós esta loucura. Se sabes fingir e sorrir como ninguém, atreve-te de uma vez por todas a iludir o fantasma da doença. Iludiste tanta gente, Perpétuo, mentiste tanto e tanto que até a ti próprio te iludiste. Porque achas, de repente, que não vale a pena lutar?
- E de que vale a pena lutar?
Seríamos na mesma insignificantes se durássemos mil anos, igualmente vulgares e inúteis, mas eu recordo com ternura os dias em que julgava poder durar dois ou três mil séculos. Todos nós imaginámos o mesmo até que o pesadelo chegou sem avisar para nos alterar o pensamento com aqueles olhos de mocho alienígena. Confrontados com a hecatombe pela primeira vez, acabamos derrotados pelo peso da verdade que acaba depressa com a nossa vida artificial de uma arquitetura mentirosa. Gosto tanto de recordar esse momento, nunca esquecerei o pensamento disforme que logo me ajudou a criar figuras, fantasmas e mundos deformados e grotescos. Olho para esse momento, que nunca mais desapareceu, com imensa saudade — ali estava a morte — ali estava a vida. Agora já só me questiono se me devo deixar morrer.
 - Porque estás tão calada? É pior para mim ver-te assim tão calada e de olhos sôfregos — vai-te lá embora, Marília, sei que me pertences e já adivinhámos juntos o tamanho do universo, e depois voltámos a esquecer. Não nos compliques a vida, aqui não há mais nada a resolver.

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