50 - ESTE LUAR QUE ME VIU NASCER
Apesar das dores, lá me consigo
levantar do chão de alabastro onde me encontro deitado. Atravesso o grande
salão da nave aos ziguezagues, chego até um dos painéis de botões dourados e
luminosos por cima dos quais se encontra uma gigantesca janela envidraçada.
Deparo-me com uma visão nítida da montanha que cerca Lavinhos, com muita neve
acumulada sobre ela. Em cima do painel encontro uma pequena mala de mão onde estão
guardadas fotografias de quando eu era ainda um pequeno ser a habitar as águas
tranquilas do casulo envidraçado. Desvendo em algumas dessas imagens o nome que
me deram por aqui. O nome está ainda oculto em muitas outras fotos, e o sítio
onde essas imagens foram tiradas não parece ser o mesmo. Ainda não conheço os
segredos das minhas famílias, mas quando lhes surge assim a possibilidade de um
filho que não têm há anos, submetem longas cartas galáticas cheias de ótimas referências. Observo a luz
de um sol envergonhado a acordar por detrás das montanhas geladas da minha
aldeia. É quase igual ao sol dos meus sonhos, quase igual aos sóis dos sonhos
de outros, mas é a minha ambição de menino poeta que vai criando agora este
sonho que ainda ninguém foi capaz de sonhar.
- Já acordaste, ó patetinha? A
minha mãe criou-me para que eu fosse capaz de me esconder. E eu obedeci-lhe.
Foste tu quem depois se habituou a dizer às pessoas que eu tinha a mesma mãe e
o mesmo pai, foste tu que me fizeste assim, tua irmã, e eu agora, que vou casar,
como devo apresentar-te ao meu noivo?
Marília está lindíssima, Marília
tem sempre razão. Sou um ser lógico, e também ilógico, mas como não apreciava
estar sozinho neste mundo, inventei esta linda irmã só para mim.
- Eu agora já não posso dizer às
pessoas que não sou teu irmão, Marília. Estragaria tudo. Tu tens razão, aliás,
tens sempre razão. Desculpa se decidi vir atrás de ti até ao teu esconderijo,
mas agora é-nos impossível voltar atrás. Se quiseres que eu desapareça, eu
desapareço! Basta uma palavra tua, e eu respeitarei a tua vontade. Quem me dera
poder voltar a passear contigo, mostrar-te a toda a gente, ter-te sempre a meu
lado. Quem nos dera podermos ser crianças para sempre, e sem nenhuma obrigação…
Criei-a, mas não lhe exijo nada.
A minha irmã tem vida própria, e eu sempre a respeitei por isso. Está aqui na
minha frente, de lindo vestido branco, e luvas brancas imaculadas. Levou anos a
alimentar este amor escondido, e obedece ao seu coração. Não lhe custa nada
desaparecer, hibernar com o seu Napoleão a quem obedece, como sempre obedeceu. O
amor é a única língua à qual devemos obedecer, e Marília obedece-lhe, e é
por isso a pessoa mais rica do universo.
- Falta apenas um minuto, meu
irmão, e esse minuto vai chegar num instantinho. Um minuto, e ouvirás as mesmas
vozes que sempre conheceste, todos a falarem ao mesmo tempo, e vais sentir uma
tremenda sacudidela, será assim como um tiro que te destruirá o ombro, e serás
reduzido outra vez a pó, e contemplarás
toda a tua vida, e ficarás cansado, exausto, tão cansado e tão exausto que nem
as tuas feições reconhecerás. Acordarás no sítio do costume, e depois de te
limparem o corpo com extremo cuidado, alguém de novo te chamará de filho, deitada
numa cama a escrever palavras de mãe, a nossa mãe…
A Marília gosta de me dizer assim
as verdades, faz-me sentir uma pessoa quase tão rica como ela. Eu continuo a
precisar de mentir, preciso de mentir sempre, pois se vos devo consideração. A minha
irmã diz sempre o que sente, e em Lavinhos as gentes sentem isso como uma ameaça,
como uma enorme inconveniência. As pessoas fogem dela como quem foge do pecado.
- E agora não digas mais nada.
Não causes desordem. Chora baixinho, e mente sempre, maninho, vais ver que mentir
não te custará nada.
Baloiço aos sete ventos, estou
pendurado numa espécie de corda, um cordão umbilical, parece que digo pela primeira
vez ao mundo que estou aqui, estou aqui outra vez, a baloiçar. Morri ignorado,
e desconhecido venho de novo ao mundo para assegurar um novo futuro. A mãozinha
marota de Marília está lá em cima, aos comandos da nave afunilada, onde acabou de
apertar o botão. Observa a imagem pela janela, aberta sobre o luar que me viu nascer,
e os montes que ladeiam Lavinhos em breve me conhecerão.



Comentários
Enviar um comentário