49 - LÁGRIMAS E PESADELOS
Agita-se mais
uma noite de sombras em Lavinhos. A aldeia dorme mas as mulheres nunca se entregam
totalmente ao descanso. Os seus sonhos são tudo menos dourados, e trazem os
braços esfarrapados e as mãos calejadas de lavrar o campo, sem nunca parar, e de
lavar a roupa e tratar da bucha e lavar a loiça, e receber os corpos suados e
enormes dos maridos que sabem lá amar, com aquelas bocas enorme todas de lado,
a tresandar a aguardente, e as vozes dos miúdos que acordam a meio das
madrugadas caóticas onde se tornou impossível descansar.
É complexa a
natureza dos sonhos de Lavinhos, não se consegue traduzir em palavras, é
impulsiva como uma criatura disforme a quem arrancaram a bondade. Há sombras
entranhadas em todos os lugares de todos os sonhos, habituaram-se a caminhar
mesmo ao lado dos Lavinhenses, muito coladinhas, sempre traiçoeiras, a
ameaçarem-lhes as vidas até ao âmago com gestos desordenados repetidos no
escuro:
- São manchas
de sangue, Senhor! Manchas de desespero. O sonho dura e esfarrapa-me. Senhor,
sinto-me um frangalho sem vontade, esmagado por esta dor lancinante que cresce
apenas de noite. A boca cresce, é agora uma coisa monstruosa, uma bocarra cada
vez maior que só serve para vomitar inutilidades.
Raúl é
constantemente assolado com pesadelos que preferia não ter de escutar. Mal se
consegue mexer depois de acordar, quase sempre alagado em suor. Madalena não lhe
fala durante os sonhos, permanece muda apesar dos lábios conservarem os
movimentos intactos desde a primeira vez que neles fez questão de aparecer. O
homem-cavalo não entende nada daquilo. Um ser magro, muito alto e esguio, de
rosto inexpressivo, empurra Madalena para longe afastando-a de si. Com as mãos
trementes, com as pernas pesadas e impacientes, arrisca uma corrida para tentar
chegar até ela, até que algo o eleva no ar e ele fica suspenso e a pairar. Permanece
assim uma pequena eternidade, antes de cair, sempre a pensar na morte, na sua
morte, que foi para onde o pesadelo o arrastou. Raúl não entende o poder de
Madalena, nem o de Marília, e muito menos o de Perpétuo, seu filho. O
homem-cavalo foi apenas usado para procriar, assim se justifica a sua
existência, pois se não os compreende, pois se não os sente iguais a si, pois
se nem se lembra do rosto dos seus próprios pais, que quase o matavam à fome…
só lhe deixavam restos e côdeas e cascas, e nem o tratavam por filho! Estes
seus filhos, sabe-o agora, foram crescendo neste sonho feito de mentiras, e o
filho poeta que criou, sem nunca o entender, é quem agora empurra Madalena para
longe dali. Este filho magro, alto e esguio de rosto inexpressivo, cresceu e
fez-se homem a sonhar às escondidas, e Raúl sempre distante, sem o compreender:
- Tenho um
filho, também tenho um filho, Senhor! Está vivo, não sei se fui eu quem o
criei, ou se foi ele quem me criou. Vi-o agora mesmo a empurrar a mãe pelos
bosques! Vi-o! Eu bem sei que era ele, eu vi-o, Senhor! É só durante a noite que
me lembro dele e me queda tempo livre para sonhar. Às vezes sonho em vê-lo
rico, um homem rico e feliz, como alguns filhos dos outros... sonho que sou
capaz de lhe dizer tudo cara-a-cara. Diante dele, Senhor, diante do meu
Perpétuo pode dizer-se tudo!
Raúl calou-se, essa
era a vontade do sonho — e deixou o rapaz empurrar Madalena para muito longe de
Lavinhos, onde todos sabiam o que se passava, onde todos ficaram a saber o que
se passou, e depois chegou a raiva e a loucura e o ódio e o ciúme cego ao
homem-cavalo para lhe abrir chagas no coração. O pároco e a mulher-puta, a sua
Madalena, estavam a fornicar no chão da sala de Albano, até se conseguia
escutar a felicidade a transbordar do fundo das suas almas. Calou-se Raúl, e num
crescendo de desespero que não conseguia mais suportar, tombou daquela altura
onde o pesadelo o elevou, demorou a cair, mas tombou, e pela primeira vez na
vida a desgraça mudou-lhe a expressão.
O pesadelo
envolveu-o, foi até capaz de o deformar. A espumar por todos os poros, com a
dor lancinante a descarná-lo aos pedaços. O homem-tempestade avançou, desceu
pela ruas numa serenidade monstruosa, agora era uma coisa sem forma nem cor,
apenas cheiro e aflição. Ficou a velha a olhar para ele, ficou a velha desgraçada
a rir-se, sem dentes, a olhar para ele.
Lavinhos era só
pesadelos escondidos dentro das suas muitas paredes.
Ali a desgraça
não o largava, tinha chegado em forma de sonho, em forma de mais um pesadelo.
Raúl já só distinguia os sons que lhe chegavam da casa do padre, escutava os
dois amantes a amarem-se no escuro, e o barulho de soluços, um ou outro ranger
da madeira seca do soalho, as árvores que se deitaram abaixo para ele
acontecer. Ouviu com clareza os estalidos que as tábuas faziam ao suportar o
peso dos corpos transpirados, escutou o som do que ele mesmo ali tinha chorado!
- Pai!!! Olhe para mim! – gritou-lhe Marília
recém chegada sabe Deus de onde. Marília vê-o ali pela primeira vez, criada que
tinha sido nesta vida para salvar a do irmão e criar gritos incapazes de se
extinguirem. – Quero que lhe saia imediatamente da cabeça essa vontade, meu pai,
está-lhe agora entranhada na pele, mas é mentira! É uma mentira-pesadelo que as
velhas lhe incutiram na cabeça para o atormentar, meu pai! Ali dentro só existe
ternura, ande comigo que eu vou-lhe mostrar…
Marília fez um
gesto de quem tenta abrir a porta, e Raúl até queria ter sido capaz de levantar
a cabeça para olhar, mas não foi capaz. Apertou com violência nas mãos um ferro
muito polido que trazia consigo, e pediu à filha para parar. Os gemidos e os
risinhos escutavam-se cada vez mais alto..., e Marília insistiu em acalmá-lo,
dizendo: - Ó pai, acredite no que lhe digo, ali dentro só existe ternura!
A pouco e pouco o
pesadelo sumiu-se, e a velha Leocádia, e os gemidos e a mentira e a dor, a
pouco e pouco aquilo tudo se diluiu em mentirosas memórias dolorosas. Mas
aqueles pesadelos perseguiam Raúl, e encarniçavam-se sobre todos os Lavinhenses
num espetáculo construído de sombras trágicas que lhes subvertiam o mundo.
Os gestos da sua mulher-ternura já
não o inquietavam.
Madalena ali estava, a mão não o largara
toda a noite. O contacto não conseguia explicar a Raúl o porquê do seu
tormento. O pescoço da mulher está ali para sufocar, e ele quase não resiste, quase
não compreende — não consegue — e como aquilo cresce e o atormenta. Madalena
acorda a sorrir. Madalena mostra-lhe as mãos cansadas, as mãos estendidas, as
mãos só amor...



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