48 - VIDA MENTIROSA
Desde muito cedo
Perpétuo se habituou a mentir. Inventava histórias e artimanhas com extrema
facilidade, e cada dia que passava melhor lhe sabiam. Não eram bem mentiras, e
não eram bem histórias, era assim uma coisa indefinida difícil de explicar, e
foi-se tornando maior do que ele!
- Sabes uma
coisa, Toninho. De quando em quando as nuvens contam-me segredos que só elas
sabem, e ontem foi um desses dias!... Mas não sei se te posso contar o que elas
me disseram. Talvez seja melhor eu ficar caladinho a fazer de conta que não sei
de nada, vou fingir que nada sei, e que nada me contaram, certo?
Toninho Faneca
sabe bem que tanto lhe faz dizer que sim como não, pois o amigo Perpétuo começa
logo a desembaraçar a língua, primeiro com explicações estrambólicas, depois
com gostosas teorias, e logo avança com palavras formuladas de maneira
meticulosa como só ele sabe. O menino poeta não dá tréguas à língua. Vira o
corpo como um contorcionista, e revira os olhos, e coloca questões e mais
questões, e depois responde, e depois faz de conta que está num palco gigante
onde é todos os atores, principais e secundários, e salta do pé direito para o
esquerdo, e outra vez sobre o direito a equilibrar-se como um flamingo... e
salta e pula, e assim saem da sua cabeça mais de vinte aventuras num só dia.
Perpétuo não
consegue deixar mentir, nem seria ele se por acaso deixasse de o fazer. E mente
como ninguém. O pai Raúl, dependendo das circunstâncias, de quando em vez
repara-lhe a mania com um par de tabefes. Pai é pai, e o poeta desde muito cedo
começou a dizer a toda a gente que tinha uma irmã chamada Marília, e
exterioriza esta crença ao mundo que é Lavinhos, e nas palavras que pronuncia
adivinhava-se mais a coisa verdadeira que a coisa mentirosa, mas as coisas são
como são, e dias há que um e outro estalo saltam para as suas faces rosadas. O
menino poeta já passou por uma terrível fase de gaguez que só a mãe Madalena
solucionou... Foi mais uma mentira, mas quando acabou, depressa lhe acrescentou
outras com palavreados encantados não dando tréguas ao impulso.
- Mas eram
mesmo mochos, mãe. Eles também sabem que temos de morrer. Não tive culpa, tive
medo, e resolvi acabar com o perigo. Estava uma pessoa escondida dentro da
parede a dizer-me o que devia de fazer, mãe, juro! E não dei cabo da nossa
casa, era uma pessoa que estava dentro da parede e saiu da lá. Deu um grito, e
depois deve ter fugido. Foi sem querer, mas ainda bem mãe, foi sem querer, mas
agora já pode viver!
É mais uma
história de Perpétuo que Madalena prefere nem discutir. Ela bem sabe o que viu
quando espreitou de madrugada para dentro do quarto do miúdo. Deus a mostrar-lhe
o caminho direito e reto por linhas tortas. E vieram depois as lágrimas que
tudo amoleceram, e surgiu de novo a visão de Perpétuo a levitar por cima da
cama, e Madalena a benzer-se com água benta, muitas e muitas vezes, sentada no chão
naquela hora tremenda.
As vidas são todas
postiças em Lavinhos, são postiças no mundo inteiro. Todas as vidas são um simulacro
da outra coisa extraordinária em que nunca se transformam. Vidas
insignificantes e postiças.
- Não me deixes
morrer, mãe, eu não quero morrer!
Madalena apertou-o
muito apertadinho reclamando-o só para si:
- Estamos no
céu, Perpétuo, não digas mais essas coisas.
Todas as
dúvidas lhe chegaram ao mesmo tempo, e quase à mesma hora. A imagem de Albano estava
ali à sua frente a olhá-la no fundo dos olhos, no fundo da alma. Não se dá um
passo na aldeia que não chegue aos ouvidos das velhas. As infames sabem tudo acerca
de tudo, e estão sempre com os ouvidos à escuta.



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