47 - VIDA ETERNA
Eulália estava
sentada atrás da porta, embrulhada num xaile preto muito velho e abjeto.
Parecia ter mais de cem anos, parecia estar ali à espera, sentada, há um par de
séculos, estatelada no banco de madeira a ruminar tragédias. As cortesias que
as outras lhe faziam eram uma questão de respeito, e beijavam-lhe as mãos duas
vezes, antes do sinal da cruz, e diziam-lhe que sim, sem pestanejar, jamais pestanejavam.
São tragédias vivas os seus olhos, e o olhar gélido vem de muito longe, de uma
vida bravia. Eulália estava sempre sentada atrás daquela porta, embrulhada no
xaile negro, à espera de perguntas, à espera, a porta sempre entreaberta, deixada
assim a qualquer hora do dia ou da noite, para que a pudessem consultar sempre
que houvesse necessidade, sempre que as vidas proibidas dos outros fossem
tentadas pelo Mal. A mínima suspeita chegava para abrir as portas do inferno.
Talvez fosse
melhor falar com Eulália, que sentia o cheiro do medo e o cheiro das outras mulheres
a centenas de metros de distância.
- Abra de lá
essa porta toda para trás, mulher! Se te parece que estou aqui à espera, então
é porque estou aqui à espera há anos! E antes de mim, minha mãe Isaura, e antes
dela minha avó Renata, e antes dela minha bisavó Ricardina. Ao longo dos
séculos, à espera, para ver recontadas as mesmas misérias de sempre.
- Pois sim! Acordaram
todas o que deviam dizer à velha, com olhares circunspetos, e Albano e Madalena
eram a tragédia que morava ali perto, e a cada uma das velhas e menos velhas o
inconsciente aqueceu os corpos com arrepios de prazer sádico, e cada uma delas salivava
enquanto lhes bordavam um desfecho bárbaro e cruel. Que drama de vida, o padre
e a amante, nus, a praticar atos tão vergonhosos que nem palavras existiam para
os descrever, e as velhas e menos velhas a salivar, mais e mais, e como o Albano
aliciava os rapazes na catequese, e depois os seduzia, e nem nos confins do
mundo se podia imaginar um ser tão repugnante como ele, e as velhas quanto mais
inventavam, mais se babavam. Soltavam gritos histéricos explicando, de maneira
grosseira, como tudo se tinha passado. Mais gritos, e do fundo desse poço de
maledicência começaram a sair ais, e depois mais ais, e mais e mais e mais...
- O difícil é
habituarmo-nos à morte e ao seu cheiro, que tão bem cheira!... Bem sei, passei todos
os dias deste meu século de vida à espera da morte. É preciso que eles morram,
é preciso matá-los, ao padre e à putéfia, ao senhor padre sarnento, ao senhor
padre-abismo de boca falsa e não humana. Que lhes caiam os dentes, primeiro, de
suas bocas ascorosas, atem-lhes depois o pescoço, amarrem-lhes os membros,
apalpem os seios à mulher puta antes de os queimar e mais ao vestido com que se
apresentou ao demónio. Benzam este punhal, dos dois lados, uma hora e meia após
o sol se pôr. Enrolem-nos e tragam-mos depois despidos, neste tapete, onde o
vício e o gozo de ambos está encardido. Ó morte, cheiras tão bem, aqui estou eu
para te servir!
A morte cheira
bem e acalma as invejas. Resolve tudo.
Eulália resolve
tudo, a majestosa Eulália, com a vida muito antiga, e mais as vidas que ainda
agora antevê. A anciã decidiu trocar, de uma vez por todas, o inferno pela
eternidade. Se a vida verdadeira nunca puxou por ela, puxou ela as vidas todas
para o inferno — e as velhas habituaram-se a esperar, quando lhe tocavam, sentiam-se
agradecidas, sentiam que também elas faziam parte de um sonho, e talvez o
inferno não as viesse reclamar. Eram esplêndidas almas estúpidas.
A majestosa Eulália
desatou aos gritos — entre a realidade, o sonho, o inferno e a vida estúpida feita de caldos azedos e pão seco. As velhas todas desataram
aos gritos, e as menos velhas também, estavam ali todas, mais aquela inveja esverdeada
com que se habituaram a saciar a fome.
*
Perpétuo passou
a infância a ser paciente. Nos telhados, esperava por Marília, que fugia para
passear pelos bosques, sempre a mentir, a obedecer-lhe, e ele sempre a mandar,
e agora não sabe se há de continuar a ser assim, tão paciente, quinhentos ou
seiscentos mil anos depois.
Cada dia
passado no chão da nave afunilada são séculos a mais de um tempo que ele ainda
não aprendeu a controlar. Ainda não sabe quem é, nem quem o obriga a fingir.
- Mano, começas
a compreender as tuas explicações e teorias? De nada te servem as palavras se
as histórias que inventas não nos dão tréguas. Viraste o teu corpo para o outro
lado e reviraste-nos as vidas. O meu amor está mais selvagem do que nunca,
avançou direito a mim como se já não me conhecesse, correu desalinhado e feroz.
Deixar-me-ias morrer às suas garras? Quando estás assim nem pareces tu,
maninho, meu querido menino poeta. Tens de te levantar. O problema carece de uma
solução imediata... Salva-me! Sim, salva-me! O Lucas pastor é uma besta que vai
dar cabo de tudo — será até capaz de matar. Pensa bem nisso mano, tu podes
perder-me de um dia para o outro, e eu sem ti não posso viver, não conseguirei
dar nem mais um passo na vida. Fora desta nave afunilada, nós já não existimos.
Pensa bem, mano, pensa… o que queres tu fazer?
Perpétuo
escutou palavras que pareciam chegar-lhe do interior da parede de xisto. Pela
primeira vez lhe chegavam palavras exteriores ao seu mundo, e eram palavras
diferentes daquelas que aprendeu a pronunciar. Estas estavam escondidas no
interior da parede, para seu espanto. Sem dar tréguas, obedeceu ao impulso com
afinco, e seguindo uma lógica estranha começou a dar cabo do reboco
esbranquiçado até conseguir discernir de onde lhe chegavam os murmúrios.
Os dedinhos magros depressa escavaram caminhos
direitos e outros não tão retos, tentando fazer uma ligação direta com as
palavras que lhe soavam a promessas de uma outra vida. A parede ficou
descascada até à medula, e o menino poeta tremeu ao escutar os fundamentos daquela
verdade:
- O que importa
não é o que tu dizes, é o que tu escutas. O que temos para te dizer é temeroso,
e não existe outra forma de o entenderes. Neste lugar onde existes, todos temos
de morrer... Aí o tens!
Perpétuo
chorou.
Os olhos
vermelhos do mocho alienígena desligaram-lhe a vida, por instantes. Apagaram-lhe
essas palavras da sua memória mais recente restaurando-lhe momentaneamente a
insignificância da vida eterna.
Tudo lhe doía, e
até a pele ficou engelhada.
Gemeu, baixinho,
diante do buraco enorme que desenhou na parede.
- A minha vida
eterna acabou! Quantos anos me restam de vida?



Comentários
Enviar um comentário