46 - O INFINITO É AGORA
Passo a mão
pelo pescoço húmido, deitado no chão, ainda sem forças para me levantar. Tenho por
companhia uma luzinha que pisca onde antes era somente escuridão. Estou quase
cego, sou um corpo absurdo e inerte que escorre uma espécie de baba verde que
me cobre. A grande nave afunilada acelera a uma velocidade dez vezes superior à
da luz, a velocidade aparece indicada no ecrã e nas paredes e no teto, em
letras e números extravagantes, cada vez maiores, são milhares, são milhares de
milhões de quilómetros por segundo. Não quero saber, não quero ver, não quero
estar agora aqui, mas tenho de ter forças para me levantar e ver tudo com muita
atenção!
Este lugar, sei
lá se existe, não existe, não pode existir! Marília foi sugada pela luz branca
da nave afunilada, eu lembro-me disso, consegui vê-la a subir. Enchi-me de
coragem e segui-a, até que uma espécie de vácuo me aspirou e trouxe para este
lugar. Que lugar é este? Quem era aquele urso alucinado que quase me tirou a
vida? Não existe, nada disto é verdadeiro, sou apenas eu a inventar para mim
próprio este estúpido espetáculo. Assisto ao enredo que vou criando, esta estranha
forma de tortura, e mesmo tu, Toninho, não existes! Vivi quase sempre isolado,
privado de grandes histórias, privado de companhia e de alguém que me pudesse
escutar. Inventei-te, tive de aprender a aceitar-me e a compreender melhor a
solidão da minha vida, por isso ofereço a mim próprio espetáculos que não
existem, meras ilusões que vou enchendo de palavras.
Até agora os
sonhos têm sido capazes de substituir o destino.
Aqui neste chão
morno, não ouço, mal vejo, mal consigo respirar, sinto-me um ser insignificante
que se consola a quebrar o destino.
Não sirvo para
nada.
Fiz crescer a
ilusão, e agora, diante deste espetáculo grandioso, mergulho no vazio. A minha
única aspiração é que possa já estar a meio do caminho. Talvez no meio do
estranho enredo possa ter início o maior dos meus sonhos. Tenho necessidade de
conseguir controlar o tempo, é uma necessidade muito primária, e a ideia faz-me
sofrer cada vez mais, e eu faço de conta que não sinto.
Aqui a velocidade
da luz mede-se numa escala diferente, e tem outro nome — agora não sei como se chama
— agora tenho medo de ficar para sempre aqui fechado nesta sala infinita, agora
tenho medo de enlouquecer
As mãos enormes
de Napoleão conduzem a nave pelo meio dos silêncios. O urso parece indiferente
a tudo, indiferente ao monstro em que se transformou e me assustou e quase
esmagou, indiferente aos meus gritos, indiferente a Marília, agora parece um
androide cego cujo único pensamento é o de levar a nave até ao fim do mundo.
- Agora não te posso
dar atenção, Perpétuo, agora não. Agora estou ainda maior, agora estou
sobressaltado ao observar esta solidão infinita, este universo infinito. Os
gritos da tua irmã ouvem-se bem perto daqui. Amo-a! O meu dever é protegê-la, isso
me diz a minha consciência e os meus instintos de amante selvagem.
Sinto-me de
novo sozinho, a imagem da aldeia de Lavinhos torna-se grotesca, quase
assombrada, diz-me que não existe, morreram todos os que lá moravam, morreram
uma morte por acontecer. Subverti o meu mundo com estranhas palavras, forcei-me
a criar este outro mundo e olho aqui de cima para o imenso vácuo. Sinto-me pronto
para tudo.
- Perpétuo, tu ainda agora mesmo não existias!



Comentários
Enviar um comentário