45 - SANGUE DO MESMO SANGUE



Existe um tempo limitado e talvez por isso se tenham inventado muitas formas de impaciência. Outrora aprendia-se a apreciar os gestos com demorada lentidão. Era quase só isso que lhes facultava beleza e lhes granjeava aquela ímpar melancolia adocicada. A vida inteira devia durar um par de séculos agora que são já poucos os que conseguem permanecer à espera.
Perpétuo sempre desejou poder embarcar na mesma nave de Marília, e pensava muito no que estaria escondido lá dentro. Imaginava que por lá se conseguiriam obter momentos de quietude e captar sonoridades convenientes ao crescimento e à contemplação. A irmã tinha-lhe dito que no interior da nave se conseguia sentir o tempo a ser desligado, e que ela tinha sido capaz de entender como é que isso acontecia: ­— Sabes, miúdo, lá dentro existe um grande ecrã onde se projetam imagens que chegam de todos os cantos do universo, e são aos milhares os elementos galáticos que respondem à chamada da nave, e são tantas as paisagens arrebatadas às profundidades mais longínquas do espaço-tempo... Até agora, tudo o que eu fiz foi uma vida simulada. Julgas que eu não sabia que tu tentavas meter o nariz em tudo o que eu fazia, meu pequeno poeta tonto, e que sempre foi grande a tua vontade ­— passei a parte inicial da tua vida a jogar esse jogo contigo, tu assim me construíste, para cumprir esse dever, e amargavas o perdido por não me conseguires acompanhar — passei grande parte da minha vida a arredar-te, a fazer de conta que não te via, e agora temos de viver um para o outro, temos de cumprir o dever, cumprir com o nosso dever, pois se somos sangue do mesmo sangue…

*

No silêncio da aldeia, no escuro da noite, imperava o silêncio e o lento passeio das nuvens agradecidas. De súbito, nasceram suspiros de prazer retirados de dois corpos libertados, e a maleita deixou de crescer neles, tão desobediente quanto agradecida.
Leocádia cumpria o seu dever, quase sempre contrariada, em contradição eterna e amarga, assim era a vida, e tinha-a ali à sua frente, e espreitou pelo vidro da estreita janela para entender melhor que ruídos seriam esses. O corpo da megera ali à espera que Albano cumprisse com o pecado até ao final, um dever primário que ela logo odiou, e odiou-o para sempre, e depois perguntava, afinal, qual era o seu dever — perguntava qual seria o seu dever, e se o fazia bem, ela sempre o fez bem, e sempre odiou. Amargava o perdido por ter de odiar assim, e a tentação a consumi-la, não a largava, apenas a tentava ainda com mais mal. A vida de Leocádia era um inferno perpétuo e tão estúpido, e os seus olhos não se lhe despegavam dos dois fantasmas amantes, deitados ali mesmo à sua frente, no chão quente da casa de Albano, leito improvisado onde agora fornicavam. Pecadores, se pudesse esventrá-los-ia com ferros e uma gadanha, se pudesse assassiná-los-ia e gritar-lhes-ia aos ouvidos: — Cumpri, cumpri sempre com o meu dever, seus filhos de uma grande puta!
Olhou para as mãos cansadas e sentiu como seria fácil estrangulá-los de surpresa. Quedou-se diante da porta, hesitante. Uma voz disse-lhe que talvez não fosse boa ideia avançar, e ela obedeceu, e repetiu ainda mais alto: — Cumpri, cumpri sempre com o meu dever, seus filhos de uma grande puta! Ide parar ao inferno, que é o que há de pior no mundo!
Mal sabia Leocádia que o inferno era seu, ela que só queria ser a outra, e que a outra fosse ela, pecadora Leocádia, um corpo a fervilhar de prazer: — É o que há de melhor no mundo! É o que há de melhor no mundo! — E ela carregada de inveja, desatou a correr dali para fora capaz de destruir tudo, por ela o mundo todo podia deixar de existir, o mundo inteiro era Lavinhos.
Velhas e novas escutaram as suas palavras, enrodilhadas num pé de vento de inveja que as levou à loucura. Os olhos ficaram vermelhos, e elas ganharam feições de répteis grotescos e hipócritas, incapazes de sonhar.
Deus decidiu observá-los, e Deus, que também era deles, decidiu tapá-los para que o mundo os imaginasse apenas como um mero sonho, jamais razão de ser de um pecado por eles criado. Iriam poder morrer com esta história sempre viva neles, levá-la-iam para a cova, sem pensar mais nas consequências daquele encontro desprevenido. Foi apenas um sonho alimentado pela veia literária de um pequeno menino poeta.
Deus reservou-lhes aquele cantinho num sonho, e salvou-os do desprezo e da perdição. Carne da sua carne, sangue do seu sangue, são filhos seus, e nenhum de seus filhos pode assim morrer.
Mas tanta inveja ainda ia dar que falar.
Leocádia, língua de fel, preparou-se para cumprir o seu dever, e fazer ao contrário do que sentia, dominada pela inveja, dominada pelo ódio, pela amargura, a mesma de todos os dias, a moer-lhe as entranhas e a paciência, todos os dias — Meninas, é isto apenas que vos digo, ao fim e ao cabo, a gente só vem ao mundo para cumprir com o nosso dever! Deus Nosso Senhor acabará por castigá-los e condená-los às chamas do inferno.

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