39 - CARPE DIEM




O meu sonho-pesadelo arrastou tudo consigo. Nesse inverno caí para dentro do caldeirão daquela pintura onde o inferno está representado, caí e esfarrapei a alma que ainda trago vestida.
Eis aqui a minha figura desconstruída — está aqui agora uma outra coisa. Mudei de expressão, por dentro deixei de ser o mesmo ser humano, um quase nada gasto, virado do avesso.
Marília está ainda mais velha, ganhou experiência e secura, Madalena e Raúl já não estão.
Não tenho experiência nenhuma de vida, talvez quase a mesma daquela noite inventada em que os mochos alienígenas me acordaram e entornaram a ternura. Ninguém me ouviu. Inventei uma irmã, nunca tinha falado com ela, e às vezes pousa ainda em mim os olhos rasos de água, o corpo de mulher-floresta a pedir por terra, a aproveitar tudo o que a mãe-natureza lhe deu.
- Aproveita tudo, Marília. — Aproveita, mana…, lá estás tu a fazer de conta que não me vês! Merda, aqui estou eu a falar contigo este monólogo que é quase sempre o mesmo, e com o qual fui aprendendo a fazer de conta, a mentir, a inventar histórias capazes de me encher a vida toda com menos medo — a mesma merda de obstinação, são palavras-urso a gesticularem coreografias, esbracejando de um lado para o outro, e a mesma ideia sempre a perseguir-me, e eu sempre a escondê-la muito fundo, como só tu sabes fazer, Marília, e às vezes até quero voltar a acreditar, e fico suspenso, alheado na ideia anterior à do pesadelo, a fazer de conta que ainda sou imortal.

*

Perpétuo mal se consegue arrastar. As pernas muito trôpegas, nasceu de novo e a pele cobre-lhe uma centena e meia de ossos, está um farrapo, tem frio e medo, necessita de repouso, e de muita terra onde dormir. O frio é agora de morte, consegue ainda ver a irmã que o salva, que chega a tempo de o salvar, que foge sempre, mas que nunca o larga. — A minha irmã?...
Naquele desespero percebe uma ou outra palavra do que Marília diz a Napoleão, que cheira mal, que chega mesmo a repeli-la, e depois pega-se a ela e abraça-a, e acaba por roer as unhas todas antes de lhe voltar a arrancar a pele do pescoço. Com a mesma sensibilidade do amante, Marília deforma-lhe as mãos, com os olhos explica quanto o ama, como mulher esfrega-se nele, e desaparecem de novo sem deixar rasto.
Talvez os dois nunca por aqui tenham aparecido.

Perpétuo tem o mundo inteiro contra si, e a seu favor.
O céu é toda a vastidão que desconhece.
O universo será o caldeirão, perpétuo inferno onde resiste.
Parece fácil resistir a tudo isto, à lembrança empoeirada desse pó de sonho necessário para sobreviver. Basta voar, ser de novo o menino-poeta frágil, um nada apenas com a noite voragem diante de si.
Tudo se gasta e desgasta.
- Tenho passado noites inteiras a rasgar as paredes do meu quarto, em combate com o mocho alienígena. A boca enorme do urso Napoleão fechou-se no meu ventre sem mais palavras com os meus olhos inocentes a abrirem-se de pasmo.
O mundo, a vida toda, são uma miragem de tempo. Tanto faz se a vida me foi ali explicada naquele quarto escuro, onde inventei Marília com ternura.
Respondeu-me logo na mesma moeda, respondeu-me logo com uma ternura humilde, e o farrapo ridículo em que me tinha transformado ganhou a dimensão de um nada imenso.
Depois, Marília caminhou molhada, nua e trôpega para bem longe dali, mas caminhou. Só eu permaneci deitado na cama, gelado, imóvel, sem reação…

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