23 - LABIRINTO EM TUAS MÃOS



Em casa, com a mãe, o poeta não conseguia parar de pensar. Olhava para os dedos, segurava as mãos dela. Às vezes tinha pensamentos estranhos acerca do que não compreendia, acerca da passagem do tempo, acerca da morte, pensamentos que não podia mencionar, nem à mãe, nem a Marília. Nesse tempo em que se assustava com ideias invasoras, o que na verdade lhe acontecia eram ervas daninhas a crescer em todas as categorias de pensamentos. Pareciam chegar-lhe de todo o lado, vindas de terras distantes, e nele se instalavam, e nele se multiplicavam descontroladas. Em teoria, o menino poeta julgava que o mundo inteiro estaria a ser invadido por pensamentos iguais aos dele. Assim que apertava as mãos da mãe, o coração dele atravessava uma ponte salvadora que o apaziguava por breves instantes.
Olha para cima, do olhar terno de Madalena não chega salvação, nada que o possa tranquilizar, nenhuma palavra lhe sai pela boca, nada lhe ocorre. Poderia simplesmente pular com ela, dançar e saltar, os dois a bailar pela porta fora, pelas ruelas e becos da aldeia, talvez assim acalmasse as suas angústias e frustrações. Talvez fosse isso que a maioria das pessoas fizesse quando chegadas a esta encruzilhada, a este labirinto sem saída onde ele se encontra. Não sabe mais o que pensar:
- Mãe, danças comigo? Se o fizeres talvez eu consiga deixar de ter medo e talvez consiga seguir com a minha vida.
Madalena não responde, apenas sorri. Para algumas pessoas o sorriso de uma mãe seria o suficiente para apaziguar muitas loucuras, seria o suficiente para serenar esses instintivos pensamentos invasores que ameaçam assumir o controle. Para o poeta isso não chega, para o menino poeta todos os pensamentos passaram a ocupar a sua mente de tal modo que ele sente que estará perpetuamente preso a esta ideia insensata de que é capaz de viajar no tempo, ser quem ainda não foi e voltar a ser aquele de quem já não se lembra. Quanto mais aperta as mãos de Madalena, mais pensa nisso. Tenta não pensar na irmã, mas acha que Marília o transformou num pequeno detetive viajante no tempo – recorda um garoto a segurar-lhe a mão, a olhar para si como ele olha para a mãe, lembra-se desse miúdo franzino chamado Toninho capaz de ler-lhe os pensamentos:
- Tu precisas de tirar a febre, a tua cabeça está a ferver, se calhar estás com uma infeção ou apanhaste algum vírus intruso chegado de outro mundo. Quem tem pensamentos assim dificilmente os consegue fazer parar. Passado, presente, futuro, nada te importa. Uma boa dose de terapia era tudo aquilo que precisavas, e é isso que continuas a repetir a ti mesmo, então porque é que não o fazes?
- Eu não sou apenas os meus pensamentos, Toninho, embora, no fundo de mim, continue sem saber exatamente o que nós somos. Tu e eu devíamos apenas continuar a encontrar tesouros de piratas a vida inteira. Pede ao capitão supremo para nos voltar a colocar no encalço daquele X encantado que para todo o sempre ficou gravado nos nossos pensamentos. Para que isso aconteça, terás de voltar a ires-te embora daqui, terás de voltar a desaparecer, talvez isso funcione por um instante, Toninho, agora que estás aqui comigo em casa, junto com a minha mãe.
Mas o cérebro do poeta volta a dizer-lhe:
- Espera, e se estiveres verdadeiramente infetado? Por que não tiras a febre? Os mochos alienígenas não eram animais muito limpos, e tu fizeste um corte na asa ao caíres desamparado durante o voo inicial. E depois ainda estiveste no rio mais o Toninho Faneca, e agora estás muito nervoso, pensas até que viveste este mesmo momento, este mesmo ciclo de vida, centenas de vezes. Já estarás louco, ou estarás ainda apenas e tão só a enlouquecer devagarinho? Queres ser capaz de escolher quais são os pensamentos que vais chamar de teus. Afinal, o rio da tua aventura está mesmo sujo e tu apanhaste uma infeção.
Mas o poeta precisa de ter certezas. Volta a apertar as mãos de Madalena, volta a olhar para os olhos da mãe para se tranquilizar, e é aí que sente o coração dela a ceder, a sangrar. A mãe aperta-lhe a traqueia até ficar sem ar, a boca seca num instante, as feridas dos braços voltam a abrir-se, incapazes de cicatrizar. A tensão inteira abandona o seu corpo de menino, um alívio imenso caiu dos céus cedido pelos anjos maus a quem a sua natureza de viajante do tempo implorara.
Dois segundos ou dez ou trezentos milhões e quatrocentos minutos se passaram até ele conseguir, de novo, raciocinar:
- Mãe, será que eu alguma vez voltarei a ser feliz?

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