34 - DO PESADELO NASCEU UMA IRMÃ
O menino poeta
está sentado no chão cerâmico da sala central da grande nave afunilada. Observa
com atenção todos os detalhes, principalmente os mais pequenos, à procura de
uma saída. Os seres que ainda há pouco ali entraram, desapareceram
misteriosamente com a fluidez de uma alma, para zona profundas e desconhecidas.
É difícil desviar os olhos deste espetáculo, o universo, o mundo inteiro, está
ali todo ao seu redor. A cada minuto que a nave avança, passam milhares de anos
que o levam, quer ele queira, quer não queira, para um longínquo futuro ainda mais
afastado na escuridão. As estrelas, os cometas, alguns sistemas estelares,
nascem para depressa serem desfeitos em poeira cósmica daqui a um segundo, um
século, dois milhares de séculos. O poeta observa e vai-se recordando desses seres
galáticos impregnados de vida, apesar de não fazer ideia nenhuma onde se
encontra e que tempo é este:
- Desde que observo
o universo, compreendi de imediato que ainda não tinha vivido, fui uma mera
fição. Quanto vale um minuto de vida nesta sala? Vale bem mais do que os meus
cem anos de vida. É preciso aproveitar ao máximo a viagem pois tudo o que até
hoje vivi foi apenas um mero simulacro de mim. Mas tu sempre foste verdadeira, Marília,
um turbilhão da vida de uma grandeza feroz. Foi difícil escutar-te, e ver-te, e
foi-me difícil seguir-te até este lugar. Senti tudo isto fechado na câmpanula
de cristal onde me mergulharam, e lá no fundo de mim não encontrei nada, só tu
existias, muda, e eu incapaz de me imaginar livre de ti. Tu és a minha irmã, és
tu que tens mais força e és muito maior do que eu.
O poeta ouve-se
de dentro para fora, sentado, surpreendido com tantas coisas simples de
instinto e felicidade. E além disso, começa agora a escutar uma outra coisa
imensa — e diz-lhe que ele ainda não existe.
*
Primeiro, um
som brevíssimo, depois, ao longe, uma voz tímida pronta a sumir-se... — ( P e r p é t u o, m e u i r m ã o, . . . ) — Ele não sabe bem qual é o seu papel. A
parede a quem tinha começado a fazer festas, estava agora aberta até às
entranhas. Madalena, quando der conta do disparate, vai fazer dele uma presa
fácil para o castigo que lhe irá aplicar.
O xisto preto
foi a única coisa menos inútil que na noite escura o poeta descobriu. Inútil, muito
menos inútil, foi ele ter ficado a saber que a restante parte da sua vida deixara
de ser eterna, e disso ele nunca mais se pode desfazer. Antes deste estúpido
pesadelo, julgava-se livre e tão leve, agora sente-se pesado e medroso. Lavado
em lágrimas, que depois limpou, pois se havia de ir para a cova, para todo o
sempre, extraído da vida que tem tanto para lhe dar.
E que mistério,
que voz é esta que insiste em chamá-lo? Primeiro, um som brevíssimo, depois, ao
longe, uma voz tímida pronta a sumir-se...
— ( P e r p é t u o, m e u i r m ã o, . . . .) — Ele deixou de a
conseguir desligar dali em diante — para se livrar da morte eterna, para
recuperar a vida eterna, o poeta regressa sempre ao quarto da casa da aldeia
para ir atrás dela, a correr…
Marília não
existe, o poeta sabe-o, mas é apenas a irmã quem mais se intromete na sua vida.
Analisa-o, discute com ele, incomoda-o sempre que foge e se ausenta para parte
incerta, fingindo-se morta — Estás viva, Marília, eu bem sei que tu estás na
cova do teu amor, e eu aqui a chorar baba e ranho por ter-te obedecido.
Marília não
existe, e ele desespera por ser incapaz de desfazer-se dela. Quanto mais se finge
de morta, mais ele começa a escutá-la outra vez.
- Estás muito
fundo na gruta! Humilhas-me quando me chamas até este lugar, tu e o teu amante Napoleão.
Sou incapaz de te largar, acompanhas-me para toda a parte.
- (S e m e p u
d e s s e s l i v r a r d e t i,
m a n i n h o! Se me pudesses livrar de ti!).
No chão da sala,
Madalena e Raúl amam-se naquela mesma madrugada, como dois
cavalos selvagens à solta na pradaria, e o gado todo a vê-los naqueles
preparos.
- Ama-me!
Assinala dentro de mim o lugar de onde nunca partirás, Raúl… beija-me… cala-te…
porque é tão difícil conseguires amar-me em silêncio?
*



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