33 - DEUS EXISTE, SERÁ QUE DEUS NÃO EXISTE



Marília deixou de ter dúvidas desde que o viu — Napoleão era imponente como um universo. Aquela não era uma hora idêntica às outras da sua existência, era preciso aproveitá-la ­— Napoleão representava a verdade, e ela bem cedo percebeu que foram as forças do destino que a levaram a embrenhar-se no bosque àquela grande profundidade. No seu rápido passo de corrida, ela chegou até ali para se deparar com a grandeza do urso feroz — O gigante assistiu a tudo, sentiu tudo, bastou ver e cheirar os odores da floresta para entender que havia naquela correria uma coisa temerosa, uma erro qualquer que ele tinha de cortar pela raiz — Lucas pastor não respeitava Marília, não respeitava nenhuma rapariga ou mulher jovem da aldeia, e não se importava que ali estivesse Deus a observá-lo. Dizia a si mesmo que aniquilaria Deus ou um qualquer anjo que se atrevesse a intrometer-se no seu caminho, e gritava, enquanto corria:
- Quanto mais foges, rapariga, mais eu imagino as minhas mãos livres a passearem sobre ti. Quem julgas tu que tem mais força? As tuas habilidades para jogar às escondidas são fracas, miúda! Sou muito maior do que tu, e basta-me colocar o ouvido à escuta de encontro ao mundo que logo ouço os teus passos dentro de mim. Podes correr o que tu quiseres, podes tentar esconder-te dessa forma instintiva que julgas conhecer melhor do que ninguém, mas antes de tu nasceres, já aos anos que eu era pastor.
Napoleão era aquele bicho imenso que ele não conhecia. O urso ainda não sabia como se chamava a menina ali perdida — Pôs-se de imediato em pé nas duas patas traseiras a fitá-la nos olhos brilhantes que lhe falaram com clareza:
- Protege-me, urso! Não hesites. A floresta trouxe-me até ti, és a minha salvação. O homem embrutecido que me persegue significa medo, a sua voz não se cala, a miséria aperta-lhe as vontades e a luxúria fá-lo perder a cabeça. Lucas é um triste, um nada, um homem-incómodo pronto a consumir-me. Falas-me com o teu olhar, que me diz para estar calada, eu obedeço-te!
Marília depressa soube qual era o seu papel.
- Fazes já parte de mim, mulher-ursa, e ainda agora eras uma presa fácil para aquele homem-monstro que te persegue e não tem. É inútil continuares a fugir-lhe. Quando te julgas livre, é quando mais sentes o peso tremendo da tua frágil condição de mulher humana. Isto era a tua vida, mas o teu instinto disse-te para fugires, e aqui estás. Estas são as nossas novas vidas, encravadas neste momento entre o nada e o nada, mais vale agora saber aproveitá-las.
Lucas corria como um doido, sempre a questionar a existência de Deus — será que Deus existe, será que Deus não existe — Lucas aproveitava as longas jornadas de pastoreio para procurar satisfazer os seus instintos e paixões alucinadas — se Deus não existisse era melhor, não havia forças no mundo capazes de o deter, e assim que as via, depressa escolhia as suas presas para caçar — Entre ele e essas mulheres-puta não havia palavras, nem regras, nem leis, tudo lhe era permitido pois ele era o único Deus daqueles lugares.
O pastor começava por apertar-lhes a boca que depois tapava. Era fundamental aproximar-se delas como uma sombra, e logo o homem-bárbaro surgia,  sem consciência, para as amesquinhar. Desfazia-lhes as roupas, impunha a sua força e o seu corpo antes de as humilhar para sempre com o seu punhal feito de carne a abrir-lhes feridas mais pesadas do que o chumbo. Às resistentes praticava o estrangulamento, até elas se abaixarem para não mais se erguerem. E não as largava, acompanhava-as por toda a parte, e os seus corpos apenas desejavam poder livrar-se do monstro. Tinham medo, mas já não era medo da morte, era um medo diferente pintado da cor das sombras. Uma consciência sempre religiosa a prevalecer, acima das outras. O mundo ao qual elas pertenciam deixava de ser de Deus. Mal ousavam respirar no cantinho onde o monstro as contemplava, sem consciência, ainda convertido em bárbaro. As forças das mulheres depressa se esgotavam. Se por mero acaso nem o bem nem o mal existissem…
Às vezes, nestes momentos trágicos da memória de Marília, ela deixa de ser capaz de alcançar o seu querido Napoleão. Fica estática a assistir ao monstro que a devora por inteiro mal ela chega à porta da gruta.
Mas esse é um outro universo ainda inexistente. Marília depende do urso para salvar esta realidade onde antes só havia o medo.
Talvez o medo a tenha ajudado a chegar até ali para vencer a morte — talvez Lucas se tenha refreado por ter tido medo do urso — o pastor apareceu naquele lugar, meio nu, a gritar-lhes que era eterno.
Pôs-se a questão a Napoleão, perante o homem-monstro, que já não conseguia conter o mal, e o espalhou por tantas vidas. O mal terminou ali, o rebanho ficou sem pastor, reentrou numa vida quotidiana de ovelhas e cabras, feita de regras simples e interesses bem pequenos.
Marília vomitou. Teve vontade de fugir, depois disse que não queria, depois disse que o amante assassino mais não vez do que seguir o seu instinto, e depois acompanhou-o até ao interior da gruta obedecendo ao impulso do seu novo coração de mulher-urso.

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