32 - O MEU NOME É PERPÉTUO




O que se passa no silêncio, guarda-se em silêncio. Lavinhos é uma aldeia remota e praticamente desconhecida. Os que lá moram juntam as mãos em preces e orações ao Divino Espírito Santo, para que os salve da escuridão e do silêncio. Outra coisa não seria de esperar.
Raúl só queria sacudir para longe o ciúme quase desesperado que o consumia.
- Sério, Madalena! Corto-lhe os colhões se ele se atrever a olhar para ti daquela maneira. Bem sei, bem sei! Bem sei que estiveste sempre ao pé de mim e eu a sentir-me perdido de cada vez que tu abrias a boca para ele te colocar a hóstia na língua, mas eu já só antevejo a tragédia que está para acontecer. Desviaste o olhar, fingias não o ver, mas as forças misteriosas com as quais eu não me quero debater impõe-se em mim, e falam mais alto que a minha voz.
- Cala-te homem! Deixa de ser parvo. A vida modificou-nos a todos, deixámos os problemas de parte e tu resolves inventar infernos onde eles não existem. Olha bem para ti, Raúl, estás nu e és ridículo quando resolves começar a desabafar os teus estúpidos disparates. Nu, tu és esplêndido, és uma força da natureza, um amante sem igual, mas depois pões-te a cismar como um estúpido mancebo. Volta a entrar em mim, Raúl, devolve-me a primavera, arrasta novamente o meu corpo com essa ferocidade frenética com que me amas sem humildade. Deixa de ser parvo! A nossa vida mistura-se e deixamos de ter nomes. O teu ciúme é uma coisa absurda! Mete-me medo e extasia-me.

As velhas em Lavinhos falam acerca de tudo, mas inventam tudo o que dizem, e gostariam de viver tudo o que inventam. Os seus passos tornaram-se mais lentos e compassados, e é agora mais fácil sentir-lhes o bafo. O seu cheiro pestilento aumenta de intensidade quando passam junto às habitações. Procuram escutar dentro de cada casa, no fundo de cada alma, e depois afiam as línguas no escuro, sempre prontas a dizer o que sentem, e caminham seguindo os interesses do ódio e do rancor. As palavras que pronunciam alastram-se como nódoas, são frases rançosas e hipócritas. As velhas, quando morrerem, terão dias bem curtos de enterro. Estes hábitos nunca desapareceram, ao invés, cresceu nelas como uma droga e valem agora bem mais que mil tragédias.
As velhas odeiam a realidade e são incapazes de esquecer a mediocridade da vida. Cobrem-se com os seus negros xaile velhos, achegam-se a eles, escondem-se neles, desaparecem no seu interior escuro e sombrio que as impede de ver a tragédia que são as suas vidas.

- Amo-te Raúl! Porque te interessam os outros? Que história é essa de eu não poder olhar para o padre, pois se estou a comungar? Não posso olhar o céu, como posso encarar esse outro mundo se não conseguir olhar cara a cara com quem mo tem para oferecer?
Raúl não estava capaz de escutar estas perguntas. O que ele queria mesmo era ser eterno, era ser capaz de fundir a sua alma à de Madalena, com os mesmos sonhos e a mesma vida, e ser também ela capaz de não o trocar por nenhum outro homem.
- És tão bonita, Madalena, nenhuma beleza se compara à tua. Sou um desgraçado, mas esta dor que carrego no peito mete-me medo. Mais que uma dor, sou alimentado por esta espécie de desgraça, pertenço a uma parte errada do meu ser, não consigo negá-lo. Seria bem mais feliz se esse Albano não existisse.
Vivos, entre quatro paredes, deitados no chão da sala conforme vieram ao mundo, Raúl e Madalena analisam este estranho universo onde a vida os gastou.
- Sim, a vida tem estes momentos belos quando nos amamos, Madalena Deixamos de viver com terror, mas depois isto desaparece, tu desapareces, e contigo Deus Nosso Senhor, e eu perco-me em pensamentos delirantes.

Albano estava morto! Só deram por ele depois de morto. A hora mais triste da madrugada perdida a sonhar, quando a vida estava ali mesmo, deitada a  seu lado.
- Eu não sei se vivi! Eu sei que não vivi!
Agora é que se lembra dela, depois de morto, no silêncio, deitado na enorme mancha viscosa e húmida do seu sangue derramado. O dia de hoje é o dia de amanhã, que é o dia da sua morte, e só deu pelas coisas belas da vida depois de se ter atrevido a beijar Madalena que passou lá por casa naquela tardinha.
Há na vida momentos únicos construídos apenas por sorrisos, Agora ela está viva, e ele também! Agora ela está viva, tão viva que até conseguiu confundir a morte de Albano. que ressuscitou.

*

Entre mim e Marília existe apenas este muro. A minha irmã apaixonou-se por um bonito ser em forma de urso chamado Napoleão. Passei séculos em silêncio, ali arquivado naquele túmulo envidraçado. Tantas dúvidas. Pois sei lá agora o que é a minha vida. É esta? Não há outra forma de vida? Há um novo ser que ocupa o meu ser, e tem muita força. Talvez eu seja todos estes seres complexos que me ajudam e me fazem sofrer — o meu sofrimento é carregado de dúvidas — acabei agora mesmo de acordar — não creio no que aqui vejo — não creio em mim — não creio nos outros.

Perpétuo!
O menino poeta escuta pela primeira vez o seu nome
Perpétuo!
Está confuso, não consegue escapar. A nave afunilada exclama o seu nome, e ele acredita, de que vale não acreditar se é apenas isso que ali acontece. Espera, e aguarda que tudo recomece.
Perpétuo!
O menino poeta escuta pela primeira vez o seu nome
Perpétuo!
Confuso, não consegue escapar. A nave afunilada exclama o seu nome, e ele acredita, de que vale não acreditar se é apenas isso que ali acontece.
Pela primeira vez sente-se pronto! Não sabia o seu próprio nome, e queria conseguir lembrar-se, não sabia bem como, mas queria… sabia que tinha outros nomes anteriores a este…
Perpétuo é um ignorante a tentar adivinhar onde pertence.
- Marília, consegues escutar-me? Marília, Marília, Marília, MARÍLIA…
A irmã não o ouve, ela não pode desviar os olhos desse espetáculo que é o verdadeiro Amor. Talvez daqui a mais um século, talvez daqui a dezenas ou centenas de séculos ela o possa escutar. Por agora as partículas inteiras do seu ser amam Napoleão do outro lado da parede.
          Perpétuo recorda o mocho alienígena de olhos vermelhos e intensos que ainda há bem pouco tempo o olhava — nele observou o universo inteiro que ainda não conseguia compreender. O menino teve tanto medo, pela primeira vez percebeu que toda a sua existência, até ali, tinha sido mera ficção.
A nave galga os tempos e os espaços do universo com uma velocidade sem igual, e vai alterando os destinos rapidamente. Uma rajada, um turbilhão, vozes desconhecidas, ainda mais mistérios, Perpétuo vê tudo isto, sente tudo isto, basta pensar na irmã..
- Basta-me ver-te, Marília, eu sei que te vi a entrar nesta nave, e sei que estás desse outro lado da parede. Estou decidido, basta-me continuar a esfuracar nela para te encontrar.
Perpétuo raspa e coloca o ouvido à escuta de encontro ao muro branco.
Ouve somente aquele nada rugoso, áspero, que lhe pergunta de novo:
- E tu, rapaz? Como te chamas?
- O meu nome é Perpétuo, e agora já sei que um dia qualquer, também eu irei morrer…

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