31 - ACORDAI



De todos os lugares da nave ascendem sons de muitas vozes que falam umas por cima das outras numa ladainha sem igual. As vozes da multidão invisível parecem constituir agora a minha alma. Atrevo-me finalmente a sair desta campânula envidraçada onde me mergulharam desde o princípio da viagem. Arrisco uns passos, mal sentindo o chão, talvez os meus olhos apenas vislumbrem estes céus noturnos, infinitos e imaculados que se encontram projetados por toda a parte. Para qualquer lado que me vire apenas o azul escuro do universo com um fundo dourado onde marcham cometas inquietos. Passei essa tarde em que acordei a observar estas sombras esplendorosas da existência. A cabeça pesa-me bastante, ainda não fui capaz de tirar este lenço húmido que me protege os olhos. O corpo transforma-se, deixa de lado o aspeto frágil de menino magro e ganha músculos que custam a romper. Imagino isto, imagino mas deparo-me pela primeira vez com um corpo e uma alma adulta, outrora fechada numa espécie de minúscula gaiola à espera de saltar, e agora salto vagarosamente, elevo-me e escuto o som que o meu novo corpo faz ao aterrar. É um mundo novo este que aqui vim encontrar, e os sons da multidão outrora adormecida, acordou em mim. Mete respeito descobrir que o mundo inteiro mudou de aspeto. Agora sou capaz de contemplar melhor a vida — e desejo perder-me nela — ainda mal aprendi a saltar, a caminhar, e tenho até medo de que tudo isto seja um sonho, estas dores insignificantes do crescimento, estas forças telúricas que desabrocham por debaixo de mim assim que ponho os pés no chão. Estou vivo, transformado em espanto, vivo e não mais ridículo. O turbilhão azul escuro onde me movo, universo sem nome, arrasta-me estonteado, ao mesmo lugar onde antes Marília passeou em silêncio. Do outro lado desta imensa parede, outra coisa a acordou, essa outra coisa desconhecida de todos chamada Amor. Marília deitou-lhe a mão, e seguiu Napoleão para o segurar, primeiro no escuro e no silêncio da sua gruta, depois para esta outra sala que se esconde por detrás deste tabique, essa outra coisa que eu não consigo ver.
- Sei que existes, Marília! Bem sei que estiveste sempre ao pé de mim. Nunca te deixei fugir, verdadeiramente. Senti que estaria perdido se te deixasse ir embora para sempre, essa foi a tragédia que aqui vim evitar. Desviaste o olhar de mim, fingindo que não sabias onde eu estava, mas eu consegui arranjar forças para te seguir e procurar desvendar este mistério.
Há ainda mais vozes que não queria escutar e que falam mais alto que o pensamento. Vislumbro seres que não queria conhecer, vislumbro seres magros que fogem de mim, como Marília, e espreitam e escutam os pensamentos. Estão aqui comigo. Tenho de os aceitar. Romperam as paredes da nave pelo exterior, nem consigo explicar como foram capazes de aqui chegar. O sepulcro de cristal despedaça-se em mil pedaços dourados, pequenas miniaturas de estrelas imperiais. São mais de dez, estão aqui à minha frente, sorridentes, cada um a olhar para dentro de mim e de si mesmo, nus, ridiculamente despidos exibindo corpos esplêndidos.
São dourados — são humildes ­—  são ternos — são as almas de cada um de nós afiadas no futuro, prontas para dizer o que sentem e por que leis se regem.
Pronunciam por gestos os seus nomes, com séculos de existência. As frases amortecem as dores do corpo que ainda não se adaptou à nova forma.
Estou com um ar idiota a fazer de conta que compreendo tudo isto.
Quanto mais penso, mais peso tenho, estou encharcado em suor. Não falamos a mesma língua. Só entendo alguns, a sua natureza são formas da minha alma. A minha alma talvez já esteja extinta, talvez já só me reste a relva e a raiz profunda das árvores que protegiam o meu cárcere de cristal.
- Matem-me!
Não consigo olhar para eles sem fechar todas as pálpebras desse outro mundo passado onde existi.
Cada novo passo que dou é um irremediável passo no caminho do porvir  — era só isto que queria mesmo ser — esta é a eternidade que quero para a minha alma —   este sonho estranho que não troco por alma nenhuma.

O menino poeta vive escondido nos telhados, vive no quarto, em Lavinhos, de onde não conseguiu escapar. São quatro paredes, e entre as quatro paredes analisa a vida com medo da morte, e a morte é a coisa nova e má que não ousa comentar. Assim começou a construir o universo dentro do seu estranho casulo de vidro — agora já está do lado de fora que é onde está o resto da sua vida...
- O que é a vida — sei  lá o que é a vida — habituei-me à sua nova roupagem, à sua nova aparência ilógica e desconcertante.

O futuro da vida do menino poeta é um absurdo que ele próprio ainda não sonhou.

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