30 - POR TEMOR A DEUS NOSSO SENHOR




Ninguém em Lavinhos sabe do que é capaz. Na aldeia, são poucos os que se conhecem a si próprios, e muito menos aos outros. Apenas afloram a superfície das coisas, pois estão mais acostumados a cozinhar nos seus interiores terrores, angústias e desesperos. Ignoram o óbvio, mas conhecem bem o coração da terra que trabalham, quase até ao âmago dos seus seres. Estas almas foram construídas numa obscuridade muito própria, com raízes profundas, com leis rígidas e hábitos abjetos. Por temor a Deus Nosso Senhor acostumaram-se a descer ao poço mais fundo da existência para de lá retirarem os restos sórdidos de uma brandura inexistente. Por baixo da espuma dos dias, estes atores e atrizes carregam atrás de si séculos de ruína e de destroços.
Já tiveram quinze anos, já tiveram dezasseis, cada uma destas velhas já foi moça, mulher jovem, mas agora suportam o desespero às costas, mantas pesadas de ilusões desfeitas, são insetos, são bichos carentes, ávidas de juventude, ávidas de desejos irrealizados, arrastam-se e espalham mentiras com o único propósito de envenenar a opinião de Lavinhos acerca de todas as coisas, com a Deolinda e a Hortense a comandar o grupo que avança em sucessivas vagas lodosas de escárnio e maledicência.

Madalena está sentada, em silêncio, com as mãos agarradas à madeira gasta do soalho, esperançosa que delas nasçam raízes tremendas que se alastrem, desordenadas, e que depois se transfigurem em nuvens encrespadas capazes de a carregar, a ela e ao Albano, dali para fora. Envolve nelas o longo cabelo e esquece-se de tudo e de todos.
Torna-se minúscula.
A formiga insignificante move-se pelo corpo compacto do amante, remexe-o, mas o homem santo mantém-se imóvel nos seus pensamentos inúteis, que voam carregados de medo.
- Sou ridículo, Madalena. Com que olhos vamos agora encarar o mundo? -A frase só existe no seu pensamento, como um instinto. A honra é esta frase, o dever é esta frase, e a vida um cenário incapaz de regressar ao passado, agora que o presente lhes deu cabo do futuro.
A formiga é incapaz de responder àquela pergunta. Não lhe compete oferecer a resposta. Corre pelo braço direito de Albano, possui todas as cores, o que só por si é um milagre pois estes são insetos de cores escuras e sombrias. Sobe até ao ombro do homem, depois avança pelo pescoço e segue queixo acima até alcançar o nariz para conseguir colocar-se cara a cara, alma com alma.
Diálogo mudo praticado na obscuridade em que não se empregam palavras. Amantes são amantes, mesmo que um já não seja a mesma figura de mulher que há pouco ali se encontrava. Já não são as mesmas figuras, os dois estão bastante diferentes.
- Deixem-me, deixem-me pensar! Quero falar, estive à espera deste dia tanto tempo, tenho estado aqui à espera toda a minha vida deste momento.
- À espera de quê? — pergunta-lhe a mulher formiga.
- À tua espera, Madalena, à tua espera... ouves-me? Se me consegues escutar, quero dizer-te que estamos irremediavelmente perdidos. Sinto que estamos perdidos. Tudo o que nos demos um ao outro, todo este ato de amor generoso, aluir-se-á num único triste momento.
- Mas eu não existo! — diz-lhe a mulher formiga.
Estremecem as bases todas da vida de Albano. Um cataclismo de proporções bíblicas abate-se sobre Lavinhos, a tempestade e os trovões ameaçam arrancar as paredes e o telhado da casa e fazer voar pelos ares aquelas coisas vulgares que a decoram. Tantas coisas inúteis que não servem para nada, que não se usam nem nunca se usaram.
Albano levanta-se, e mal coloca os pés no chão, finge ser formiga. Agora pergunta a Deus Nosso Senhor se tem piedade de si, só Deus poderá ter piedade dele por ter passado a viver ligado a certas ideias e palavras, a certos factos impossíveis, a certas memórias do passado que julgava serem indestrutíveis, e que o transformaram em homem formiga.
O seu passado é uma nódoa que se alastrou e o corroeu, misturou-se depois a nódoas bem mais escuras e mais fundas, penetrou-lhe na alma para a dissolver inteirinha como uma doença fétida, mas o pior é que ele se habituou a sentir isso tudo com complacência. O passado do padre subverteu-lhe a vontade e a verdade.
- Pergunto a mim mesmo se me deixo morrer, Madalena, agora que as nossas vidas já só dependem de mim.
A sua consciência debate-se com este problema para o qual só existem duas soluções, e ele recusa-se a desviar o olhar de homem formiga da gigantesca pistola que o chama e lhe grita impropérios com cada vez maior desespero. Assim, com esta voz interior a falar-lhe mais e mais alto, sempre mais alto, as vozes alucinadas das velhas da aldeia até lhe custam a chegar. Os berros de umas e as alucinações das outras misturam-se, são a sopa-multidão de que agora se constitui a sua alma.
Isto coincide com o exato instante em que Madalena lhe bate à porta. O homem aparece-lhe assim, meio nu, sem sequer se lembrar que não estava vestido. Isto coincide com uma Madalena que sempre o olhou na missa com olhos inquietos. A mulher de Raúl passou-lhe esse olhar trágico meia-dúzia de vezes durante a missa, e até na comunhão. Os dois sentem um baque, e são incapazes de tirar os olhos um do outro.
Imaginam a vida subterrânea.
Imaginam que tudo seria bem mais fácil se os dois fossem formigas amantes. Amar-se-iam longe de todos na profundidade postiça e fechada de um qualquer formigueiro adormecido.
Imaginam que avançam diretos ao seu apetite, e ali escondidos de tudo e de todos entregam-se à guerra da luxúria sem medo da morte, sem temor nem crenças, apenas sexo e alegria. Ali respiram à vontade e de outra maneira, como só duas formigas amantes sabem respirar.
Imaginam que afinal a morte não é inevitável — e o mundo inteiro mudou de aspeto — e eles perderam-se na vida — com este drama a passar-se num quase silêncio.

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