29 - NO TETO DA NAVE PROJETAM FILMES MENTIROSOS



Aqui estou eu a fingir todas estas vidas. A minha, a de Marília, a de meus pais Madalena e Raúl, a de todos os Lavinhenses, a vida de Albano e a de seu pai, cuja vontade sempre foi acabar com a vontade do filho — finjo, e o meu desespero acalma, habituou-se às histórias mentirosas que eu inventei ao Toninho, a ponto de já não saber discernir o que era e o que não era, o ser real e toda a artificialidade que eu imaginei para poder brincar com o tempo. Mas agora, quando tiro a máscara, o que ficou? Não tenho coragem para tirar a máscara, as mentiras estão entranhadas na alma deste fantasma em que me transformei e que desconheço, e que só ganha vida própria aqui nesta nave onde esvoaçam estes outros seres de olhar metálico e rosto de pássaro inteligente. Eu já não sei bem quem sou, mas sei que aqui estou porque não quis abandonar Marília à sua sorte, e até o meu pensamento de metal ganhou uma nova estridência, soa como uma voz estranha e aquática dentro de mim..

Não sou eu quem fala. Por cima desta câmpanula, atrás dela e ao redor de mim, voa um bando de mochos de corpo disforme, e diante de mim, no teto desta nave, há uma projeção de vida dos tempos cretáceos até aos confins dos séculos, a contar histórias bem mais mentirosas do que as minhas. Abro a boca dentro deste líquido morno onde me encontro mergulhado, e é com espanto que ouço e desconheço a minha voz. A vegetação que me cobria, essa espécie de floresta densa que me tapou o sarcófago onde esta espécie de morte me regula a vida,  exerceu uma telepática e quase oculta influência em todos os meus sonhos. As suas longas raízes entranharam-se na minha existência, mas como se este tampo envidraçado que me protege nunca se abriu nem se quebrou? A porta blindada do meu sepulcro protegeu-nos, a mim e a Marília. A morte já não existe, nunca existiu, aqui a morte desapareceu para todo o sempre, e é isso mesmo que eu entendo ao observar, com mais atenção, as imagens que vão passando no teto da sala. Através deste vidro pedra decifro as fisionomias hérculeas dos animais extintos, e debaixo deles, por entre o chão e no interior dele, transparecem outras fisionomias bem mais frágeis e minúsculas, como pequenos insetos de corpos rudimentares, sem cabeça visível, a apertarem-se em círculo, uns por cima dos outros, até formarem uma esfera gigante idêntica à da nossa majestosa Terra onde os anos passam com paciência.

Assim se passaram séculos, sem a tragédia da existência humana a atormentá-los. Sobressaltam-se estes seres com as futilidades próprias de animais selvagens. Nos seus gestos e olhares transparece uma espécie de certeza, alguns deles sabem que estão ali para durar imensos séculos, e muitos deles arriscam gestos que podem até comprometer a sua existência. O tempo passa, intervalado com lutas e catástrofes de dimensões bíblicas, mas para estas lutas a biologia revestiu-os de carapaças de cimento e de grandeza, e sorriem enquanto se matam — e o tempo passa — obedece a um desígnio cruel que o construiu assim, sem poder esperar — eu tenho esperado a minha vida inteira nesta miserável condição de filho único — perdi aquela noite à procura da minha Marília, na escuridão gelada do quarto da aldeia, com um medo atroz e uma angústia que me petrificou os membros e a alma — e o pior de todo é que apenas descobri xisto por detrás da rugosidade branca com que vestiram a parede. Onde é que Marília se tinha escondido, de que cor seriam a sua pele macia e olhos doces capazes de me acalmar a existência? — Pois, talvez fossem apenas feitos de mentiras, sim... pois sim!

Estou um pouco surdo, sou apenas capaz de ouvir o que me convém. Este funil voador é a nossa casa, o que ouço cá dentro obriga-me a virar e revirar o corpo nesta cama apertada. Estou cada vez mais sozinho, uma solidão que não sou capaz de explicar. Agito-me, suspiro. Sinto-me frágil, trôpego, um pouco adoentado, e agora estou surdo. Tenho de parar de mentir, preciso de recuperar a saúde e descobrir a minha irmã escondida. Tenho mentido a mim próprio, a tudo o que vou imaginando digo sim, tenho dito sim a tudo e a todos os meus pensamentos, e que sim, que Marília entrou nesta mesma nave porque aqui mora o seu grande amor. Não pode ter havido outra razão para ela ter desaparecido e me ter deixado para trás sem dizer para onde ia. Aqui veio à procura de Napoleão.



Madalena entrou na casa de Albano com um vestido bege, um xaile negro pelos ombros, e o desejo estampado no rosto marcado com a vida. A sala emanava um cheiro adocicado. Albano pousou um grande castiçal de prata que trazia na mão na grande mesa da sala, e obedeceu ao olhar da mulher. As duas figuras permaneceram imóveis, uma em frente à outra, silenciosas, dependentes, ligadas por esse mesmo interesse primário e primitivo.

O medo acabou ali mesmo, e o escrúpulo, e atreveram-se a encarar a morte cara a cara, e as velhas que passaram na rua ouviram tudo, e de passos apressados correram para dentro das casas das outras a espalhar o veneno de Lucifer, as suas próprias almas se transfiguraram em demónios, os sonhos desfeitos vieram à tona, e ficaram absortas na notícia, de queixos caídos, a remoer em seco!

Metiam medo. As velhas consumiram-se com aquela ousadia, histéricas, aos gritos, espantadas, fantasmagóricas, ferozes, espremeram até à exaustão um ódio instintivo. Pois se os seus homens jamais ousaram expressar uma mesma paixão. Ignoravam-as, outros usavam-as na vida como meros animais, outros gastavam-as em atitudes grotescas, outros habituaram-se à sua presença com um alheamento meramente pegajoso. A paciência daquelas mulheres há muito que tinha adquirido aquele tom de verde desbotado que feria a vista. A cobiça e a inveja, que não podiam nem ousavam admitir, encrespou-lhes o pêlo e perturbou-lhes a alma. Foi naquele dia que o inferno montou arraiais na aldeia de Lavinhos.

As máscaras de Albano e Madalena caíram a seus pés, e por esse facto seriam julgados e sepultados ao mesmo tempo, com o maior dos incómodos, por toda a comunidade, sob alguns palmos de terra, sem qualquer remissão dos seus pecados, até que a grande sombra do esquecimento os deformasse para sempre.

Muita gente na vida só conta com a morte, jamais com uma noite de paixão assim. Madalena viu Albano avançar para ela com inabalável convicção. O interesse era mútuo. Impelidos por essa mola invisível, deram um passo em frente, e a boca do padre uniu-se à de Madalena que ficou descomposta rapidamente: — Vem de lá o inferno, senhor padre! Vem de lá o inferno! E, de um momento para o outro, lá chegou o inferno que tanto custara acontecer, e outras sombras e labaredas e calores e cenários admiráveis sem regra nenhuma. O mundo inteiro desapareceu, os dois amantes deixaram de ter importância, tudo passou a não ter importância alguma. O que parecia indispensável à vida estava reduzido a um minuto de tempo nenhum com proporções gigantescas... O padre Albano esqueceu o seu passado desesperado, a sua morte acabava finalmente de se compor na sala perfumada onde os dois se abraçavam. O passado brevemente esquecido, o futuro enclausurado dos dois túmulos dos amantes, o presente ensaiava no chão da sala a coreografia renovada dos seus corpos febris — ser ou não ser eis a questão...

A mulher e o homem resolveram vencer a morte, que transformaram em poema.

Foi isto que acabou agora mesmo de ser projetado no imenso teto mentiroso da minha nave de cristal, e eu sorri.

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