28 - A VIDA DAS MOSCAS



Uma gruta distante e inacessível foi o lugar escolhido por Marília para se esconder. Ali ela sente-se segura, ali aprende a dificílima arte camaleónica de se mimetizar numa qualquer matiz da floresta. O seu sonho é ser capaz de adquirir o dom supremo da invisibilidade, é ser capaz de emular as cores plácidas dos charcos e do lodo, é conseguir tingir-se de luz e escuridão e resolver a equação com facilidade até que essa arte se entranhe para sempre em todas as células do seu corpo.
Marília dedica dias inteiros a praticar as muitas formas de respiração. São horas seguidas passadas em silêncio absoluto, um silêncio igual ao da morte.
Na zona mais profunda da gruta a escuridão é total. Aquela talvez seja a mais escura e recôndita de todas as grutas que existem ao redor de Lavinhos, e o passar dos séculos não parece ter dado conta da sua existência.
Marília continua desaparecida a jogar esta espécie de jogo das escondidas com o infinito. O menino poeta não a quer perder, a sua vida deixará de fazer sentido sem ela. Deixar de a ver, de a procurar, ele próprio deixaria de se reconhecer pois as suas almas são embrionárias, apesar dele ser bastante mais novo do que a irmã. O menino sofre com estes pensamentos que lhe dizem que, mais cedo ou mais tarde, ela não regressará, e fica destroçado sempre que a vê partir, do alto dos seus telhados, a dominar as corridas por entre aqueles arvoredos que têm raízes mais profundas que a verdade e o tempo.
Para Marília, a correria é apenas a continuação do jogo da eternidade.
O poeta junta as lágrimas derramadas de mais um momento de saudade, a outro, e a outro ainda, junta todos os momentos e lágrimas que ali já derramou.
Este foi apenas mais um dia, um outro dia, mais um outro dia inútil passado no alto do seu telhado solitário. As moscas mortas fixaram-se por ali, presas em teias sórdidas que as cristalizaram para toda a eternidade. As roupas do menino estão pintadas com nódoas do mesmo ouro subterrâneo das paredes da gruta onde Marília gosta de se ausentar. O abraço forte e sentido da irmã pintou-lhe a camisa que a mãe Madalena hoje lhe tinha dado para vestir. Sabe Deus quanto tempo terá passado desde esse abraço.
A vida inteira transformada à volta de uma ideia de existência, apenas e tão só uma mera ideia, mas que lhe permite tirar de cima todo o peso do mundo... O menino poeta sonha que um dia acabará por descobrir Marília e os dois se envolverão num abraço transformado em sorrisos. A sua paciência é infinita, é igual à da aranha que teceu a teia que captura as moscas transformando-lhes a existência formidável nesta estranha forma de agitação.
Duas moscas gesticulam a um ser gigante e desconhecido. Certas existências são minúsculas e crepusculares, certas existências dependem da vontade de um qualquer menino poeta para que possam continuar a acontecer.
- E se fosse eu? E se fosse eu? Será que sou eu?
As moscas foram libertadas no alto do telhado, e voaram para longe dali.

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