27 - DILÚVIO
Há semanas que
a chuva não dá tréguas em Lavinhos. As ruelas estão inundadas e as habitações
inchadas com tanta humidade. Dias inteiros de tempestade, e esta manhã, em
poucos minutos, a água invadiu as lojas já saturadas de humidade no rolar
estranhíssimo deste verão. Os aldeões passam por meras sombras no meio da
tormenta. Tudo lhes pesa, e pesa ainda mais o calçado encharcado e as roupas
que se colam aos corpos transpirados sempre a protestar. As árvores afundam as
raízes soterradas e ganham altura e força. A arquitetura da paisagem muda com
as novas regras meteorológicas. O pequeníssimo ribeiro, quase sempre seco e sem
vida, viu o seu leito ser de novo reclamado por uma transbordante linha de água
com caudal assustador. Os outros dias de temporal foram tranquilos quando
comparados com o dilúvio de hoje.
Albano tinha dado
instruções, na véspera, para dois homens abrirem valas ao redor do cemitério,
pois algumas campas e túmulos tinham abatido e as águas ameaçavam desenterrar
os mortos. O Zé Gabriel comanda as operações a sachar como um doido, mais o
Luís surdo, homem com olhos de sapo estrábico quase magnéticos. A dupla tenta
evitar a inundação do cemitério, e depressa vê chegar um núcleo mais
apetrechado de aldeões a quem o Albano convocou para ajudar na tarefa. Falam,
berram, entregam-se uns e outros à labuta com o dilúvio a aumentar de
intensidade.
O céu deseja
levar com ele os restos mortais de todos os que ali estão sepultados, apesar da
construção apressada do fosso tentar impedir a enxurrada de galgar os passeios
e as paredes do cemitério. A tarefa inglória consiste em desfazer e atascar com
terra e sacos de areia a entrada principal do cemitério.
O imenso
cipreste ignora estas realidades práticas. A árvore assiste, com agrado, à descida
das campas. As almas começam a saltar para o exterior, e para ela são visíveis.
A atmosfera quente e húmida pinta-as com cores diversas que só os ciprestes
conseguem discernir. Há almas que são uma contínua exaltação de violetas e
algumas, mais esverdeadas, arrastam-se nas águas como cometas esmeralda. Outras
há que parecem construídas de ouro desde a base, mais ondulante e frenética,
até à raíz dos cabelos.
As almas são
extremamente sensíveis, e as simpatias e antipatias antigas regressam quando elas
se cruzam por debaixo do ciprestre. As emoções exteriorizam-se em cada gota, e vêem
à tona em tons dourados e esverdeados num deslumbramento sem igual.
O majestoso
ciprestre vê tudo exatamente como acontece, vê a alma apaixonada, aquela que mais
odiou, a alma cujo amor partiu tão cedo, aquela cujo coração era de ouro, a
alma piedosa, a alma genial do menino prodígio, a alma destroçada pela traição,
a alma do doido que os deixava aturdidos, a alma solitária, a alma compadecida
e a puritana, a alma desgraçada e a alma mais feliz. Sentiu falta de uma
tempestade assim, uma destas há anos que não acontecia em Lavinhos, e o
ciprestre agradece aos céus que este se tenha lembrado de si.
O pior que pode
acontecer é perderem-se as almas que foram apanhadas desprevenidas neste
dilúvio. É ele o dono do cemitério, mesmo estando toda a aldeia a tentar evitar
a catástrofe. As boas gentes de Lavinhos gritam, oram e praguejam, improvisam
novas estratégias para tentar estancar o caudal tremendo deste rio.
E é neste dia
insano que Albano recorda aquelas coisas que não queria relembrar, e isola-se
em oração. Com a arma à distância de um gesto, leva à boca o copo de cristal
meio cheio de brandy. Sente o corpo a levitar para longe de toda a terra húmida
que o arrasta, como às almas dos defuntos, desesperadamente para bem longe dali.
Desaparece como a alma de um cão vadio, e quando regressa, com lama e lodo de
todas as levadas, reflexos da enxurrada, volta cansado e muito infeliz. Tanta
agitação, tanto receio da desgraça.
- Porque tenho
medo da desgraça, Senhor? Nem com a ajuda do hábito consigo manter a sanidade
no lugar. Quanto mais me aproximo da morte, mais saudades sinto deste pardieiro
velho que me caiu no regaço. Fui abafado deste outro lado da muralha da vida, e
é à noite, e em dias de tormenta, que a dor redobra de proporções.
O xisto de
Lavinhos enegreceu, e está muito mais polido com a intensidade da chuva.
A alma errante
e disforme de Cremilde esvoaça livremente por julgar ser de novo primavera. A
doença maldita que a derrotou para sempre numa noite de luar hoje ficou
esquecida. A chuvada permitiu-lhe chegar hoje ao alto do cipreste que se põe a
olhar para si com olhos estéreis de árvore altiva. Cremilde olha para a
paisagem de Lavinhos como quem revê um sonho, e com os ossos todos partidos e
já esquecidos na sepultura aberta, foge a esvoaçar nesta manhã dorida.
Afunda-se, com prazer, nas nuvens onde nasce este oceano libertador. A alma de
Cremilde navega, ganha uma eletricidade que quase a desintegra e que produz um
fumo verdadeiro e bem visível.
- As almas deviam
ser menos combustíveis. - diz Albano ao sentir o cheiro daquele fumo. O peso das
memórias que o atormentam tiraram-lhe para sempre a capacidade de sonhar. O padre
anjo de asas partidas bem cedo compreendeu a sua inutilidade.
Por entre as
árvores e as nuvens carregadas de eletricidade, ouve a voz magnética da alma de
Cremilde que hoje resolveu invadir o seu sono ao acordar.
- Este brandy de
odor intenso é igual às nuvens que envolvem os céus de Lavinhos, Madalena, é igualzinho
ao perfume do turbilhão que criou a Via Láctea, e arrasta tudo consigo, e arrastou-te
em espiral todas as vezes que te trouxe até mim para transformar as nossas
noções do tempo. Basta apenas um travo, um simples beijo teu, é gota de âmbar para
tingir-me de pecado.
A aldeia a ocupar-se
da salvação dos muros do cemitério e das almas que nele descansam e, sem crime algum
para confessar, a mão de Albano alcançou a arma mais uma vez. Desta feita o braço
direito não tremeu.



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