26 - AS HORAS INTEIRAS DE TODAS AS MADRUGADAS




Fecho os olhos, tento adormecer, consigo ver uma chuva que desaba do céu, e na penumbra reparo melhor nos olhos do mocho que me observa. A aldeia fica do outro lado da janela do quarto que se assemelha às grades de uma prisão. Da loja sobe uma humidade que se entranha em todas as almas e o tempo de agora é rapidamente substituído por uma outra figura de mim.
Ponho os olhos neste lugar onde antes adormecia. Agora não é mais um quarto, está transformado. Vejo os mesmos gestos e acções que ali pratiquei num outro século. Isto é uma mera aparência do que aqui aconteceu. O tempo é agora outro e passou num ápice, com a mesma lentidão de sempre. Mergulharam-me numa campânula idêntica à de Marília, estou toldado com tanta luz, falha-me a visão. Esqueço por momentos a minha aldeia. O que mais me importa é saber que nesta nave também viaja Marília. Um dia voltarei a ver o seu sorriso, correrei atrás da sua astúcia e finalmente conseguirei acompanhá-la na corrida, mesmo se até hoje nunca consegui fazê-lo. É uma longa viagem esta que nos espera, durará séculos, viajaremos por recantos deste universo onde nunca entrou a luz de nenhum sol. Neste casulo envidraçado descansarei. O silêncio e esta humidade espessa que me invade a medula adormecem-me os músculos e tornam-me os gestos mais lentos. Cresce na sala onde me encontro uma espécie de vegetação sem cor definida. As sebes são de um outro século, crescem imensas, tão depressa que se erguem por cima deste tampo de vidro tapando a vista por completo. Em cima de mim mora uma imensa parede vegetal impregnada de raízes e pequenos troncos esquálidos que foram construídos para durar uma pequena eternidade. A floresta imvadiu todos os espaços do gigantesco salão da nave.
Adormeço.
Todos os meus pensamentos giram em torno da mesma ideia antes de se desligarem.
A parede do meu quarto continua a ser esboroada pelos meus dedos finos de menino amedrontado… e eu contemplo a experiência como se fosse um outro rapazito medroso a desfazer a caliça. A parte exterior é rugosa e texturada, a parte interior da parede é maravilhosa. A aldeia é povoada por seres humanos que se agitam numa existência tão transitória e finita como a minha. Sei que ainda estão vivos, mas afinal talvez já tenham falecido. Todos os dias alguém acaba por falecer, os mortos estão aqui presentes, todos os dias, todos os mortos
se misturam à volta de mim… e não mostram vontade de me largar.
Compreendo agora como me foi difícil tomar esta decisão. É difícil viver todos os dias e todas as horas, foi mais fácil aceitar este convite misterioso e deixar-me transportar pelo fio invisível que até aqui me trouxe. Tenho de dormir, tenho de ser capaz de descansar…

O menino poeta envelheceu durante a viagem.
O menino poeta ficou mais novo durante a viagem.
Marília amou Napoleão, os dois fundiram as suas almas de ursos durante todo o tempo que durou a hibernação. A nave rasga os céus de muitos mundos e de muitos tempos. Enxurradas de galáxias, de estrelas e de asteróides foram deixados para trás. Muitas vidas e mortes se espantaram à sua passagem, e muitas foram as forças monstruosas do universo que se mostraram incapazes de atrasar o aparelho voador.
Diante deles, no ecrã de cristal, projeta-se a dimensão espantosa e insignificante do universo. Napoleão beija Marília como se os dois tivessem tomado conta do mundo. Marília escuta os seus corações baterem em uníssono.
Napoleão é o pai dos seus filhos, será ele o pai dos seus filhos, e todos os dias ela acorda mais feliz. Sempre que o abraça e ama, acorda ainda mais feliz. As suas costas estão em carne viva, mas ela continua a entregar-se a este amor todos os dias, sem gritos, sem dor, finge que quase não existe tal é o espanto de poder viver um amor assim.

Em volta do círculo de montanhas de Lavinhos, a solidão regressa, e as badaladas da torre da igreja voltam a anunciar, uma a uma, as horas inteiras daquelas madrugadas.

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