25 - O CÉU FICOU VERMELHO POR CIMA DE LAVINHOS



A aldeia acorda, pouco a pouco. O menino poeta esqueceu-se por instantes onde está, e esfrega os olhos. As luzes reluzentes da grande nave iluminam o céu de Lavinhos por detrás de nuvens muito densas. Daquelas nuvens dir-se-ia que faisca o brilho do inferno, tal a intensidade de vermelhos que toldam o céu. Várias palavras se detêm na cabeça do poeta ao olhar aquele céu, chega mesmo a temer que as figuras mocho que o ensinaram a voar o levem na nave para bem longe dali. Chegam outras figuras que o envolvem no escuro, e lhe dizem baixinho para que as escute bem:
- Marília está cada vez mais interessada em viajar connosco de volta ao passado — há séculos que ela esperava por este desenlace — toda a vida é fictícia, somente as palavras são realidade, e no entanto esta vida fictícia é a única que conhecem — estamos aqui para te levar, se achares que pode haver algum sentido nas tuas outras vidas passadas e futuras — vamos partir dentro de breves instantes — viemos até aqui para te provar como são valiosas todas as vidas, e as vossas não são as únicas que protegemos.
O poeta hesita, como seria de esperar. Está a escutar vozes que lhe soam por todos os lados e sente uma grande pressão pela importante decisão que tem de tomar. Parece-lhe tudo muito sinistro, só queria poder voltar a viver aquele dia em que ele e o Toninho Faneca partiram à descoberta do tesouro de Cornelius Barbudo. Estava ali naquele impasse, a matar o tempo que demora a passar, os pássaros alíenígenas a olhar para ele, estáticos, a observá-lo como se ele fosse uma mera insignificância. De onde pairam pode ver-se a aldeia toda... Ninguém por lá se mexe, nada lá se move.
Passou assim um dia, ali deitado.
Passou uma semana, passou um século — e os mochos alíenígenas à espera da sua decisão, somente a grande nave continua a brilhar atrás das nuvens, esse pêndulo invisível gira a uma velocidade inimaginável, e está pronta para partir.
          - Devolvam-me a Marília, por favor! Não quero que ela se vá, não ainda. Preciso que ela me ajude a suportar o que me falta viver deste outro lado da vida.
Em Lavinhos, toda a gente fala no céu, mas poucos são aqueles que sabem verdadeiramente lidar com ele. Muitas são as almas que vivem de rastos, com as almas da cor da cinza. Vivem as vidas de aldeões de maneira convencional, sabendo que a vida inteira passa num segundo. Disso têm consciência, e é apenas isso que julgam ser o infinito. Os mais velhos entretêm-se a jogar a bisca e a trocar palavras rígidas sentados à mesa da taberna, trocando sons toldados de aguardente. Há neles, decerto, essa coisa chamada consciência, um sentido qualquer de que o céu existe e nele poderão até vir a caber, mas nada disso tem importância enquanto durar aquele jogo da bisca.
          O tempo impiedoso do mundo em que o poeta terá de viver não pode mais esperar pela sua decisão. Os seres alíenígenas acomodam-se de regresso ao grande funil voador.
- Já não nos podes ver — não podes vê-la nunca mais — Napoleão nunca se separou dela mais do que uma hibernação — nunca lhe faltou ao respeito — Marília é a mãe dos seus filhos e foi ela quem ele aqui veio resgatar.
          Todas as noites que Marília saía de casa e se embrenhava na floresta era para tentar descobrir o esconderijo do seu amor. A demanda durou alguns anos. O menino poeta recorda deitado todas as vezes que a viu fugir sem saber ao que ela ia. Para ele, aquela loucura da irmã não fazia sentido, a sua vida não faz sentido sem a existência de Marília. Depois de pensar mais cem mil segundos, o poeta decidiu condenar-se à viagem que lhe foi proposta, apesar do medo e de toda a desconfiança.
O inferno parece existir neste céu avermelhado que acorda Lavinhos inteira e a deixa a cheirar a enxofre. Albano, que não pregou olho durante a noite, aponta na direção do céu com a garrafa de brandy vazia. Nenhum dos habitantes sabe o que existe neste céu que observam. Vivem momentos de dúvida e oração, as nuvens avermelhadas são da espessura das montanhas e parecem redobrar de proporções. Por detrás delas fica o céu e o tempo infinito.
Para não morrerem de espanto, os Lavinhenses rezam ao Senhor e à Virgem Maria, agarram-se às orações por não entenderem este céu de fantasia que todos desconheciam. Sem ele, contudo, não poderiam existir. Preferem manter a cegueira, optam por rezar ao invés de tentar ver o que se esconde por detrás daquelas nuvens.
Esse outro mundo não real moldado pelo tempo e que tanto os amedronta, esse mundo onde sempre viveu Marília, foi agora escolhido pelo menino poeta, seu irmão, para sobreviver.

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