24 - CONFISSÃO
O menino poeta escuta o rebanho de
Lucas a atravessar, devagar, a praça da aldeia ainda deserta. Os seres vivos
avançam alinhados como uma muralha de lã encardida que ainda não projeta as
sombras nas paredes. Os seus barulhos são pedras que lhe pesam na memória, são iguais
às imagens pesadas dos santos nos seus nichos em altares, e a imagem da praça
ainda vazia acorda-o sistematicamente com lembranças desta procissão uniforme
que se entranhou na sua alma de poeta, no mais húmido recanto da alma.
- Eu vi o Lucas correr atrás da
Marília, mãe, juro que vi! Só não consegui saber, ao certo, para onde correram,
mas sei que desapareceram por entre buxos do tamanho dos pinheiros. Não cheguei
a tempo, foi tudo muito rápido, a mana corre depressa demais, corre sempre
depressa demais para eu a conseguir acompanhar. O pastor queria fazer-lhe mal,
mãe, ele olha sempre para ela com aqueles olhos malditos e nem se esforça em disfarçar.
Apetece-me arrancar-lhe os dentes todos à pedrada, mãe, juro que é mesmo só
isso que me apetece.
É mais do que em sonhos que a dor do
menino poeta vem à superfície, mas foi só a sonhar que ele se confessou desta
forma a Madalena. A figura materna era um ser quase tão alienígena com estes mochos
que o ajudaram a voar. Está caído na relva, perto de uma pedra enorme, quer
falar, talvez não possa falar, é somente silêncio que lhe sai pela boca. O
ouvido à escuta, e ouve o barulho persistente e longínquo das ovelhas de Lucas
pastor. Debaixo deste teto celestial tudo é bem diferente. Deitado na relva sem
paredes capazes de seduzi-lo para que, com os dedos magros, lhes possa abrir
crateras que tornem visíveis os seus corpos de xisto.
Marília fugiu, de novo, e antes de
lhe dizer adeus, reduziu a vida do poeta a uma mera insignificância.
- Jamais conseguirei esquecê-la, mãe.
O sino da aldeia deixou de tocar Ave Marias, agora toca a finados e já ninguém dorme.
Ouves o som dos finados?
A morte reduz-se apenas a uma triste
cerimónia em que toda a gente se veste de luto. Se o menino poeta pudesse, impedia
a morte de surgir, sem razão aparente, de um dia para o outro, neste palmo do
universo.
As ovelhas devem imaginar que o
mundo inteiro é só aqui nesta serrania onde pastoreiam, e deve ser assim que se
lhes afigura a imortalidade da alma.
As paixões nunca dormem, e o homem criou
a cama onde as mãos dos amantes se habituaram a fazer todos os dias os mesmos
gestos, mesmo que a cama seja o chão gasto da sala, o mesmo soalho pegajoso
onde Madalena e Raúl gostam de se amar como dois animais selvagens. O tempo parece
ilimitado para amar, parece ilimitado quando se ama, mas o tempo não chega para
tudo, ele adquire a cor do xisto, a cor das pedras que começaram a aparecer na
parede do quarto do menino poeta, e todos os dias ele se recorda, e escuta o
mesmo ruído que faziam os seus dedos que não paravam de esgravatar.
- Por mais que eu tente, mãe, já não
te escuto os passos. Esta é a insignificante lei da vida, e é a insignificância
que governa todas as aldeias.
O menino poeta regressa ao futuro. Esperou
ano após ano, olhou para todos os lugares com olhos inexpressivos e um sorriso descolorido
estampado no rosto, um agora que é feito de mentiras. Agora perdeu Marília,
Madalena, Raúl, Toninho, agora sabe que histórias construíram o seu futuro
embrulhado em presente, e tenta fazer-se passar pelo mesmo menino de mil cores
que sempre foi para conseguir sobreviver.
O que terá
acontecido para estar tanta humidade em pleno verão? As velhas regras do clima
já não existem, o tempo parece um doido varrido a correr desvairado por sobre
um tapete feito de brasas. Este julho faz um frio absurdo e a chuva não pára de
cair. E todos se queixam, e repetem a ideia de que este ano não haverá verão.
De nada vale viver a vida se não existir calor no verão.
O padre Albano passa
a vida a limpar os móveis empoeirados da sacristia, agora deu-lhe para isto.
Depois de horas gastas na labuta, fica para ali fechado a observar os móveis
reluzentes a quem se apegou, com desespero, como se fossem filhos seus.
Leocádia anda muito aflita com o que se passa com o senhor prior. A beata pensava
que a situação, apesar de estranha, talvez não tivesse grande importância, mas
a coisa ficou dramática depois do final da segunda semana, e uma tragédia assim
que fez um mês.
- Manias! Manias!
Manias! Ai meu querido Santo António, meu Santo Deus, ai Jesus, acudam o senhor
padre Albano que ele já não anda perfeito do juízo!
Leocádia, antes
de passar a notícia de orelha em orelha, rezou alguns Pais Nossos e muitas Ave
Marias. Depressa a novidade pegou fogo e alastrou. A comadre Adelina chegou, acompanhada
pela sobrinha Hortense. Se algum dia tivessem de envenenar a aldeia inteira, não
haveria duas almas mais indicadas para o fazer. Há os que se gastam e consomem
apenas com o que às suas vidas diz respeito, mas Adelina, Hortense e Leocádia não
conseguem viver sem fazer avançar palavras mentirosas, sem lhes acrescentarem o
dobro em má-fé, e a língua começa a adquirir uma tonalidade semelhante a uma folha de papel gasta coberta de pó. O velho Agostinho, marido de
Adelina, perdeu anos de vida a tentar regular-lhe a consciência. Partia para a
igreja, todos os domingos, ainda antes do dia acordar. Dobrava-se sobre o corpo
antes de sair da cama, sempre pelo lado direito. Se acordasse a mulher, ela seria
bem capaz de o culpar dessa simples ninharia. Dissolver-lhe-ia um pouco de
veneno amargo numa grande malga de vinho e pão, e logo o substituíria por um
outro homem mais capaz de respeitar o seu descanso.
As velhas
beatas contaram pela aldeia muitas mentiras provocatórias acerca do padre Albano,
e foram rápidas a acrescentar ao grupo a companhia de Celeste. Ela serviu
primeiro na vila, depois serviu muitos anos na cidade. Serviu um senhor médico
em Lisboa antes de regressar à aldeia. Limpou, varreu, lavou, esfregou, e antes
de perceber, estava a caminhar para a morte com a mesma roupa com que tinha
dado início às suas funções. Com as mãos ainda sujas de lavar a louça, ainda
com quase a mesma miséria com que partira, regressou. O riso de Celeste era tão
falso como as suas palavras, mas serviram-lhe de côdea quando se negou a
confessar tudo o que a vida lhe recusou. A maldade ficou-lhe entranhada nos
ossos.
- Comadres,
chamei-vos aqui para vos dizer que o padre Albano perdeu, de uma vez por todas,
a razão. O homem já não andava lá muito bom do juízo, mas agora…
- Não me diga,
dona Leocádia. A vida está sempre a pregar-nos partidas.
- Sim, é bem
verdade, Celeste. Ele está aqui, mas a cabeça do padre Albano há muito tempo
que partiu para um outro lugar! Olhe que faz rir, mas na verdade só me dá
vontade de chorar! Não sei como aguento. De manhãzinha encontro-o, já de pé,
com tudo imaculadamente limpo, tudo no lugar, nada há nada para eu fazer, e o
prior nem me dirige a palavra, avança para a lareira para acender o lume em
pleno verão, depois aquece a água como se não tivesse um fogão para utilizar.
Há criadas com esse propósito, esse sempre tem sido o nosso serviço, ó Adelina,
até os hábitos e panejamentos ele passou e aprumou com destreza.
- Às tantas é alguma vadia que ele
deixa entrar durante a noite que lhe faz o serviço… esse e outros, não acha
comadre Leocádia? Eu cá já me passou tudo pela ideia, … isso e muito mais. Parece
que o homem já não tem as orelhas bem pegadas ao crânio. É destas criaturas que
dão asco e parecem santinhos a aturar os meninos dos outros, na catequese, … e
nas palavrinhas mansas se apegam aos filhos alheios e ainda parecem chorar
sobre todas as desgraças,… sim, sim, e vossemecês ainda não deram conta como o
padre Albano olha para a Madalena da praça durante a comunhão?
As mulheres foram de casa em casa
soltando o veneno, as chamas iniciais depressa
ganharam dimensão. O sonho e a dor revestiram-se de xisto, a vida na aldeia
ficou grotesca, as palavras mentirosas tornaram-se vulgares, mas a existência
deixou de ser monótona.
O tempo é gasto
a abrir valas profundas entre os crentes e os não crentes. Formam-se fações
lentamente, dentro de cada ser, dentro de cada casa de xisto, palavras doentes
tecidas na escuridão e no silêncio. Por estes dias Albano não consegue deixar
de pensar no pai, e vê à sua frente um inocente e frágil peão no mais sórdido tabuleiro de xadrez. Quer resistir, e ainda mais se afunda nessa história
que não quer recordar.
- Começo a
perceber porque é que o hábito é que me fez suportar a vida.
Às vezes acorda
com a pistola na mão e grita:
- À morte! à
morte!
E aperta o
estúpido gatilho que chora balas imaginárias sobre si mesmo.
- Amo este minuto,
Deus meu, como amo a vida esplêndida, trágica e aborrecida. Amo esta inútilidade
em que me transformaste, Senhor! Mas já não se passa nada, Deus meu, já não se
passa nada. Todos os dias direi estas mesmas palavras. O tempo dói, sabe a fel
e é ele quem torna as figuras grotescas. Não há nada melhor que este jogo que é
o da morte... ou o da vida.
O candeeiro que
ilumina o quarto faz crescer a sombra da garrafa de brandy pelas paredes numa
fisionomia majestosa. Albano chegou àquele lugar em que a vida se esclarece melhor
à luz do inferno, mas ainda não foi capaz de arriscar o passo definitivo. O
tempo é agora gasto a limpar tudo, a poeira bafienta aos santos nos seus
nichos, aos móveis, aos altares, aos relicários e às relíquias, ao desespero que
aumenta e já não se pode traduzir em palavras.
A aldeia cresce
horrorosa ao redor da sua dor. Aos poucos os pesadelos de Albano brilham mais
que os móveis reluzentes. O ódio cresceu sem ele ter dado conta, mas nem ele
sabe bem o que está por detrás de tanto ódio. Talvez toda a gente que se
habitua à vida depressa se habitue à ideia de matar.
As velhas
beatas detêm o poder e estão debruçadas sobre o palco onde foram tecendo as
mentiras, e o que menos lhes interessa são as palavras do padre.
A Adélia diz
bem alto à Alice o que a Hortense já sabe, dito pela Adelina, que soube de tudo
pela Leocádia, contado pela Celeste, para que Madalena a possa escutar.
- Pois sim...
pois sim... Estais para aí vós entretidas com veneno para matar o tempo como se
fosse uma insignificância essa merdas que repetem até cheirarem mal. Julgam que
o tempo as transforma em verdades? Julgam?
- Tal mãe, tal
filha! Devias era fechar a tua Marília à chave antes que fique prenha ….
Tanta inveja, o
pêndulo invisível da desgraça vai e vem com regularidade num implacável apelo à
morte. Uma vida falsa e mesquinha tinha acabado de as dominar. Na aldeia do poeta,
toda a gente fala no céu, mas passam e vivem no mundo sem nunca para ele olharem
na sua temerosa realidade.
- Mãe, olha que
antes da Marília nenhum de nós reparou no que está no céu. Uma nave em forma de
funil prepara-se para a levar embora para sempre. A minha vida deixará de fazer
sentido se ela desaparecer. Foram os mochos alienígenas que me ajudaram a ver o que nos é indispensável para viver.
O menino poeta navega
à deriva dentro do seu quarto escuro enquanto esgraveta na parede. O medo que antes
o petrificara, dá-lhe asas para esfarelar devagarinho a caliça. Agora já sabe que
não é um menino infinito, agora já sabe que a sua vida também terá um fim.
Hoje respiro, o
ar que me entra no peito permite-me viver.
Esqueci-me daquele
dia distante em que raspava os dedos pequenos na parede do quarto com receio de
morrer, mas é mentira pois eu nunca me esqueci, somente não queria morrer. Ninguém
assim tão jovem deveria sujeitar o pensamento a tal desajustamento da
existência



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