18 - LEVITAÇÃO


 
Deitado.
Estar deitado no chão mais verde de todos.
As árvores de pé, os mochos alienígenas a voarem por cima dele, um voo circular, e Marília não está ali. Ao longe o relógio da torre da igreja toca quatro badaladas e ele sem se conseguir levantar, e depois toca a hora seguinte, e ele olha para o céu, vê círculos nas nuvens desenhados por mochos, e o funil gigante feito de metal reaparece no escuro, muito brilhante e giratório, está nitidamente à espera de qualquer coisa, talvez de um movimento seu. Até lhe custa respirar. Vai ser um processo longo conseguir levantar-se dali. Os cinco pássaros são iluminados por focos de luz branca muito intensa que os sugam até ao objeto voador, feitiços celestiais lançados pelo tubo metálico que sai da nave que mantém Marília no seu interior. O menino poeta tenta lançar gritos ao vento, sem sucesso, tenta falar, sem sucesso, tenta sussurrar, sem sucesso, está mudo, paralisado de medo ou de outra coisa qualquer. “Vamos todos morrer hoje, todos, toda a gente do mundo… é hoje que o mundo vai acabar.” – pensa o poeta, sem conseguir mexer uma pálpebra, uma pestaninha, é somente a pensar que sente, e deixa mesmo de conseguir promover movimentos aos músculos. Um novo feixe de luz sai da nave projetado sobre o menino que fica vestido com um fato cor de prata. É uma espécie de rapaz de aço que agora está ali deitado na relva mais verde de todas, ele sente imensas cócegas, tantas que até consegue esboçar um pequeno sorriso, e duas lágrimas mornas escorrem pelos cantos dos olhos até caírem na relva. Hoje era dia de ir à pesca com o Toninho Faneca, os dois combinaram tudo sem dizer nada a ninguém. O amigo vai ficar zangado e depois preocupado se ele não aparecer. Por causa deste acontecimento improvável, a pescaria vai ter de ficar para outra altura. O grande funil rodopia a uma velocidade mais reduzida enquanto suga o corpo do menino poeta. Depois acelera e desaparece. Uma nave similar surge no mesmíssimo lugar passado somente alguns segundos. Um intenso campo eletromagnético causa grande instabilidade na atmosfera com relâmpagos e ventos ciclónicos. O corpo do menino poeta volta a ser depositado na cama relvada, virado de frente para o gigantesco funil. Marília aparece deitada ao seu lado, sorridente e com um misterioso brilho no olhar, levanta-se, pega na mão do irmão e ajuda-o a erguer-se do chão. De que lugar misterioso terá ela surgido? Está suja e as suas roupas bastante descompostas, parece ter sido atacada por um urso. Sem demoras, ordena ao irmão que regresse a casa, em troca ele oferece-lhe um abraço que dura uma pequena eternidade.
- Obrigado, mana! Eu adoro-te! És de longe a minha melhor amiga.
Marília sorri, dá-lhe um beijo e olha para os lindos olhos castanhos do irmão. Está contente, muito contente por estarem os dois vivos, ali, naquele instante. Estão cansados, ele mais do que ela, e a noite ficou gelada de repente.
- Sonhei com mochos, mana, e tive medo, muito medo…
Os pássaros permanecem ali em cima a vigiar. São outros mochos, vieram dentro desta outra nave que é a mesma, mas que chegou de uma outra época e de um outro lugar. Viajou no tempo, e pelo espaço-tempo, e por muitas outras inimagináveis dimensões. - Mana, tu não tens medo de morrer?

A porta do quarto abre-se, mais de metade do estuque da parede desapareceu. Afinal estava apenas caído em forma de flocos de neve no meio do soalho onde assumiu a forma de um pequeno vulcão. O corpo do menino poeta flutua por cima da cama, entre o colchão e o teto. Madalena volta a fechar a porta num repente, encosta nela as costas e deixa-se escorregar até ficar sentada no soalho. Foi aí que começou a rezar o Pai Nosso mais importante da sua vida, e benzeu-se, e benzeu-se, e benzeu-se,… e com as mãos agarradas uma na outra, jurou à Virgem Maria e a Deus nunca mais fazer aquelas loucuras com o Albano.

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