17 - ABENÇOADAS SEJAM AS TUAS PALAVRAS
- Olá, como tens passado?
– pergunta Marília.
E eu respondo:
- A vida que levo é
ridícula, estou louco mas gostaria que me desses ouvidos de quando em vez. Os
teus filhos só dizem coisas disparatadas para as quais não tenho paciência.
Ainda ontem te chamaram para os ajudares a fazer o funeral de um pássaro. Não
param quietos. Observo-os em silêncio, a eles e a ti a quem solicitam sempre, e
a nossa conversa foi de novo interrompida pelas pestes insuportáveis. No futuro
não terás tempo para mim…
O menino poeta não sabe o
que é isso de ter filhos, e não sabe explicar o que acontece quando morremos. Pensa
por breves instantes, talvez regressemos ao lugar de onde viemos antes de
acordarmos transpirados numa cama, a meio da noite, a saber que somos mortais
pela primeira vez. Sabe lá de onde veio, não se lembra de nada, ninguém se
lembra ou sabe de onde veio, e quem disser o contrário mente descaradamente.
- As nossas conversas
nunca acabam, mana, nem parecem ter tido um início, os teus filhos cansam-me,
eles e as suas constantes brincadeiras sem tino nenhum. Quantas vezes já te
contei a história daquela noite em que nós dois desaparecemos na floresta? Eu a
cair, um pássaro desengonçado à espera de ser salvo por ti. Lembras-te dessa
história?
Não havia nada para fazer
naqueles dias, inventar histórias era todo o oxigénio que o menino poeta
necessitava para sobreviver. Misturar personagens, enredos, tempos, cenários,
diálogos, transpirações, e precisava do Toninho a quem contava essas migalhas
doces que lhe cresciam na alma.
- Cheguei cedo demais...
foi isso? Terei chegado cedo demais? – pergunta-me Marília com uma voz doce.
Respondo-lhe daquela maneira que ela detesta, com outra pergunta:
- És feliz a viver
naquela cidade tão grande? Ainda te sentes tu nas ruas movimentadas? Vives uma
fantasia, mana, e eu devia sabê-lo melhor do que ninguém. Eu sei lá porque as
pessoas mais queridas das nossas vidas acabaram por se matar, assim, sem
explicação nem motivo nenhum. Dei quase dez anos da minha vida para acabar o
estúpido romance, e fartei-me de matar gente pelas páginas todas, sou um
assassino tão estúpido como as letras que usei para os aniquilar. Não falo muito
de ti no meu romance, preferi ser delicado para contigo.
E eis que regressam os
estúpidos pressentimentos, aquelas sensações ímpares de que qualquer coisa de
importante acontecerá a qualquer momento para abalar as suas vidas. Deve ser
dos nervos, é a mais óbvia explicação. O menino poeta não vê a irmã há anos e
agora que ela está ali a barriga volta a doer-lhe, os joelhos fraquejam, as
pernas tremem, ele senta-se no chão com os olhos a arder sempre que se atreve a
olhar para ela.
- Tu estavas lá, estávamos
todos lá quando aquilo aconteceu, eu mal te vejo e agora estás aqui. Impediste
a minha morte, libertaste-me quando eu caí, ficaste ali deitada comigo na terra
húmida e verde, eu feito mocho de asas rijas, e quero saber o que fazes da tua
vida nessa cidade estúpida onde agora vives.
O bolo está maravilhoso,
a atriz tem de sair de casa e deixa o filho com a ama. O menino não quer, o
menino ainda não sabe que sabe o que vai acontecer. Nada faz sentido, a mãe não
costuma sair assim de casa para deixá-lo tão cedo na Dona Hortense, ele detesta
a mulher que o aperta, ele detesta que a mãe tenha outras coisas para fazer e o
deixe ali prisioneiro daquela mulher. Resolve brincar sozinho, sempre sozinho,
e destrói de novo a casa que construiu. Ali só existe aquela casa de madeira
para brincar.
- Porque não me deixaste
morrer enquanto caía? É impossível morrer em sonhos, é possível só morrer na
realidade e nas histórias que invento.
Marília tem três filhos
no futuro, dois rapazes e uma menina. Os rapazes são quem mais incomoda o
menino escritor. São adolescentes, são estúpidos como adolescentes, ficam ali
parados no sofá a olhar para ele com aqueles olhos inquisidores: - “és maluco?
Tens mesmo cara de doido, tio, a mãe obriga-nos a vir visitar-te porque diz que
tu és a pessoa mais importante da sua vida, depois de nós e do pai, e tens um
nariz estranho e comprido, meio torto, és feio mesmo com esses olhos azuis, e
estás sempre despenteado. És um tio velho e maluco” – tudo isto dizem os seus
olhos.
O menino escritor está
sempre a pensar na história que escreve ou que ainda tem para escrever, não
quer saber da vida para nada, nem das histórias que já contou. Raramente volta
a olhar para elas, são pesadas e escuras quando envelhecem, são leves e
brilhantes quando se escapam da sua prisão que é a alma dele. Marília visitou-o
e ele ausentou-se novamente para o livro novo que anda a escrever. Vive sempre
duas vidas, a irmã diz que isso é uma bênção, e ele regressa do lugar para onde
viajou.
- És o mesmo sonhador de
sempre, em que pensavas tu agora?
Viajar.
- Pensava em viajar para
um país onde as camas fossem confortáveis e nós caíssemos nelas transformados
em mochos alienígenas, eu e tu, lembras-te como foi, Marília? Foi assim, caímos
de mãos entrelaçadas na cama do hotel, eu ia morrer se não existisse ali a cama
que me salvou, bem diferente da cama onde o pássaro de olhos vermelhos me
transtornou a existência para sempre. Talvez seja por isso que eu mato tantas
personagens nas minhas histórias. Agora mesmo estava a pensar matar uma heroína,
uma atriz grávida que quase se afogou, mas é melhor deixá-la viver, talvez em
troca dela mate antes um padre, ou talvez o pai desse mesmo padre que nunca o
soube ser.
O poeta não queria
escutar os barulhos das brincadeiras dos sobrinhos. O poeta queria escutar a
voz da irmã, queria ter a vida dela na cidade, não quer ter a vida dela na
cidade, onde a vida social a atafulha com eventos fúteis e estéreis, cansativos
e deprimentes, tão cansativos, tão apetitosamente banais.
- Eu amo-te, Marília!
Tens mesmo de regressar assim tão cedo? Fica mais um pouco… dá-me um beijo e um
abraço, não fujas outra vez de mim, não te escondas na floresta, deixa que eu
te ame como os amantes se amam, deixa de ser minha irmã por uns instantes, casa
comigo, tem filhos comigo, não esses que trazes contigo quando aqui vens. A
vida é sempre esta merda de vida, …cinzenta, e só na noite me compreendes
melhor do que ninguém.
Marília chora, o irmão
está louco como só os poetas sabem enlouquecer.
- Um dia voltaremos a
escapar os dois para a floresta de Lavinhos, mano, um dia qualquer havemos de
regressar. Agora tenho de ir, a tua prisão é perigosa mano, é bem mais perigosa
do que a minha.
Suspiro.
O poeta agarra-se a um
cigarro para descansar.
Agora é difícil, tudo
difícil demais. Os papéis espalhados no chão por toda a parte.
- Estive a chorar porque
detesto festas, e detestei a maneira como os sobrinhos olharam para mim. É
sempre uma festa quando Marília me visita.
O significado dos seus
olhares só importam se nos deixarmos incomodar por eles. A vida inteira passada
neste falso conforto das palavras. Foi feliz? Alguma vez o menino poeta foi
capaz de ser feliz? Quando menino sentiu felicidade no cimo dos telhados das
velhas casas de xisto, foi em outro século, em outra vida.
- Só estou a dizer que já
fui novo algures no passado, todos viveram novos no passado, e no presente são
os velhos de agora, e no futuro ainda mais velhos e ausentes. Só tenho amigos
tristes porque vivo a infelicidade dos outros que uso nas histórias que
invento. Sei que estou vivo quando ela me visita, e morto nas restantes horas
da vida. A felicidade teve o seu início na relva onde nos deitámos depois de eu
cair logo no primeiro voo. Um dia destes irei visitá-la na cidade, ganho
coragem e vou.
O menino poeta saiu de
casa para jardinar palavras sentado no banco do jardim. Um comboio imaginário
demora a passar, é nessa máquina de ferro que chegariam as novidades nesse dia.
Tarda em chegar, quer sair dali, partir para a cidade grande onde Marília mora,
lá quer ser feliz. O comboio chega e ele fecha os olhos. Tem fome, pela
primeira vez em muito tempo sente apetite. O comboio chega e ele não embarca,
nem as palavras que dele saem são mais interessantes que as anteriores.
A atriz voltou para ir
buscar o filho a casa da ama Hortense. Fala com ela coisas banais, o menino
abraça-a, nada se compara àquele abrigo morno. Sentados no carro conversam
acerca de mudanças, as possíveis e as impossíveis. O menino diz à mãe atriz o
quanto a ama, ela olha para ele e percebe que os seus olhos são o do adulto em
que se transformará. Não entende porquê, o que a terá levado a pensar tal
coisa, o dia começou igual aos outros, o dia está a ser o mais improvável de
todos os dias, e podia bem ter sido o último. Ele sabia, era isso que o seu
olhar lhe tido transmitido, o filho sabia o que ela tinha tentado fazer. É
sempre de uma janela que recorda a mãe, que a vê, igual à janela do carro por
onde a estrada recuava numa inconstância civilizada.
- Mano, abre a porta!
Voltei hoje mais cedo, voltei sem os miúdos. Abre a porta, por favor.
O poeta recebeu-a de
pijama, estava de olhos muito abertos a arrumar objetos de maneira aleatória,
visivelmente alterado pelos medicamentos.
- Hoje és apenas tu quem
eu escuto, Marília! Senhora Marília! Onde estão os miúdos?
Ela voltou para lhe
contar, de novo, a mesma história de sempre, mas ele quer que a irmã lhe conte
uma nova história, quer que ela lhe diga o que fez, como lhe correu o dia até
ter ali chegado. Foi uma manhã vulgar, sem mochos alienígenas, sem ursos, sem
piratas, sem amantes apaixonados em vãos de escadas, sem naves espaciais em
forma de funil, foi apenas mais uma manhã.
- Tu és tão boa para mim,
Marília! Eu amo-te, mas aprisionei-te descaradamente por causa desta minha condição.
Hoje não matarei ninguém na minha história, prometo. Os nossos pais fizeram um
ótimo trabalho, és a mais perfeita das irmãs.
Albano não saiu da cama
naquela manhã, não teve forças. A imagem do pai esfuracava-lhe a memória com aqueles
dedos grossos de unhas sujas e mal tratadas com que ele lhe tocava. Pôs-se a
pensar na pistola, pensa sempre nela quando a cabeça o arrasta e abandona no
beco que é o seu passado. Pôs-se a pensar, era apenas vergonha o que sentia,
vergonha para a vida inteira, era impossível aguentar. Passou a valorizar um
pouco mais a vida quando o pai faleceu, vítima de um enfarte fulminante quando
ajudava à sacristia naquele abençoado dia de Finados. Suprema ironia, alguém
ter de morrer para que outros passem a valorizar mais a vida. Morreu-lhe o pai,
e morreu o menino poeta que Albano poderia ser. Leva o corpo cansado até ao
quarto de banho para lavar os dentes e limpar o suor do rosto envelhecido. Não
suporta o seu próprio cheiro, não suporta ter de se mostrar orgulhoso e
corajoso ao rebanho da sua paróquia, à frente de todos, e todos sabem lá a vida
corajosa que teve de fabricar para conseguir fingir-se assim.
Representar.
É exatamente isso que faz
o padre ator.
Vai ganhar um prémio, vai
recebê-lo hoje à noite numa cerimónia luminosa igual à dos Óscares.
Representar e lavar os
dentes bem lavados, depois tomar os medicamentos, não quer morrer como o pai,
não quer. Tem de manter-se vivo, ser capaz de ajudar as vidas dos outros, saber
o que nelas acontece a todos os instantes, escutar as suas preces e confissões.
Vai ganhar um Óscar, o
Albano, pois no seu presente conseguiu escapar do beco onde o pai o enfiou.
- Parabéns, meu filho. Está
calado, meu filho, a guerra foi muito pior. A mãe não se importa, não acredita,
não pensa, apunhá-la-ei no coração se disseres alguma coisa acerca deste nosso
jogo, filho. Percebes o que te digo? Claro que sim, tu és tão inteligente,
Albano, tão inteligente…
Lava os dentes.
Albano lava os dentes
todos os dias mais de uma dúzia de vezes, é o seu check-up de rotina para tentar manter os dias maravilhosos do seu
presente, não vá o passado regressar para o atormentar.
Marília não sabe contar
histórias como o irmão, não tem jeito nenhum. Só se lembra de coisas sem interesse,
mas são só esses mimos que o irmão lhe pede para contar, e como ele gosta de a escutar.
- Estava para haver uma
festa, a sala era horrível, muito escura, iluminada por um velho candeeiro.
Duas mulheres falavam uma com a outra, eram parecidas com a nossa mãe, eram
parecidas comigo, eram dois monstros desfigurados na mais mórbida das festas. O
cancro levou-lhes todos os entes mais queridos, elas são as únicas sobreviventes
de suas famílias. Júlia, nome da mais velha das mulheres, pensou um dia fugir de
casa, deixar o marido e os filhos, mas conseguir fazer isso sem se arrepender era
uma história bem diferente. Adriana, a mais nova, escutou-a, quis fechar-se sozinha
numa outra divisão da casa para não ter de a escutar. Permaneceu ali quieta, tirou
a fita que lhe prendia o cabelo para ganhar
coragem, era disso que ela precisava, disso e do beijo apaixonado do seu verdadeiro
amor.
O poeta ouviu Marília, saboreou
cada palavra como uma bênção.
- Amo-te Marília! Já te tinha
dito hoje o quanto eu te adoro?



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