16 - A NAVE LEVOU-NOS ATÉ UM FUTURO SOMBRIO




A cama desfeita. Não consegui de lá sair. Tinha frio, as mãos estavam geladas, completamente geladas. O despertador tinha tocado, mas eu tinha a certeza que o tinha desligado antes de me deitar. Estava tudo igual a ontem, nada estava igual a ontem, era mentira, o mundo inteiro rodava de forma diferente. Não tomei o pequeno-almoço, era preciso começar a escrever.
Sentei-me no sofá da sala, muito anos depois, para começar um novo texto. Ali estava eu a preparar-me para escutar diálogos entre quem não existia, pois se não tinham sido imaginados. A atriz espreita a rua da janela, vê o marido partir para mais um dia de trabalho, deixa cair uma cortina quase transparente com o menino de pijama a observá-la no meio da sala. Ela diz ao filho que termine o pequeno-almoço, e ele obedece. É muito novo para entender a complexidade da vida dos pais, a melancolia paralisante da mãe, todo o dramatismo que lhe passa pela alma e ao qual ela não tardará a sucumbir.
A cidade onde o rapaz vive no futuro está a acordar de mais um inverno, os seus romances são difíceis, muito difíceis de compreender. O último que escreveu roubou-lhe dez anos de vida e, como todos os escritores, usa coisas da vida que realmente aconteceram para construir a sua ficção, reinventa a sua escrita na vida de outros. Num dia cabe a vida inteira de uma pessoa, e em dez anos cabem as vidas de todos esses dias feitos de histórias de gente. É disso que precisam os leitores-vampiro que sugam as palavras dessas histórias, e o escritor padece da terrível enfermidade que é ter de as fazer acontecer. Mentiu quando afirmou que se alimentava de comida verdadeira, se ali já não estava é porque a devia ter comido. Não se preocupa com a alimentação como devia. É um sobrevivente demasiado perturbado com a doença que o debilita. As pessoas respeitam o seu trabalho mas não sabem nada da sua vida.
O trabalho de um escritor deve perdurar, ele não tem certeza se isso acontecerá com o seu trabalho pois continua a desejar escrever acerca de todos os assuntos, tudo o que vê e o que cheira, quer ser capaz de captar em palavras as sensações, as suas e as dos outros, as histórias inteiras do mundo, todas elas, todas baralhadas, mas sente que falhou pois se é humano. Como qualquer um de nós é orgulhoso, é vaidoso, ambiciona tudo, quer agarrar o Amor e depois tem medo, e juntar as mãos é mais difícil quando se ama, quando se amou e não se pode voltar a amar assim, ou não se é correspondido, e se morresse talvez ninguém ficasse zangado com a sua morte.
Escreve as vidas dos outros para não viver a sua.
Seria fantástico se não morresse, se não pensasse sequer nesse assunto… seria fantástico se o convidassem para uma festa onde o seu trabalho fosse reconhecido, seria fantástico se não estivesse tão doente e sem forças para trabalhar.
O menino poeta ama Marília, beija-a na boca com ternura, uma quase despedida que ela não compreendeu. No futuro ela deixou de lado a sua vida para tomar conta do irmão. De olhar em olhar, quer regressar ao passado de onde nunca devia ter saído. No futuro está tudo errado, e nada se ajusta…
- Foda-se! Tinha logo de ser hoje, tu não podias ter escolhido outro dia para me atormentares a alma, meu irmão… tinhas de redesenhar-me o destino. Agora tudo ficou mais claro do que nunca.
Ele detestava ser interrompido quando estava a escrever. A empregada teve um dia a ousadia de o incomodar e foi logo assassinada pelo seu olhar e tom de voz. Ele pedia-lhe tarefas ingratas que ela cumpria e depois ele não queria saber de nada, nunca queria saber de nada do que ela fazia. A criada era criada… e falava com ele assim: “Senhor, para o almoço… o que deseja para o almoço de hoje?”, e ele respondia que uma viagem qualquer lhe servia, não imaginava nada de melhor para o almoço que uma viagem qualquer. Ela desesperava, coitada, com a loucura do poeta, que depois saía de casa para dar um passeio e pensar melhor que destino dar às suas histórias.
Talvez a mãe do menino se mate, ou talvez lhe faça um bolo com a sua ajuda. É isso, os dois farão um bolo para demonstrar afeto. Viver o dia-a-dia é o que há de mais cansativo. O bolo saiu melhor do que se esperava, a vida saiu bem pior do que ela esperava, saiu quase igual ao romance triste que está a ler. A vida dos outros é quase tão triste como a sua, e ela imagina uma amante imaginária que depois beija para não morrer. Será que ela se importou de ser beijada, claro que se importou de ser beijada, e as lágrimas de ambas escorreram pelas suas faces interiores com o filho menino a assistir a tudo sentado no chão da sala.

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