15 - TU BEM SABES COMO TE AMO
O menino poeta fecha os
olhos enquanto cai, fecha os olhos e vê a chuva a cair no quarto, uma chuva
intensa feita de lágrimas grossas. O menino poeta deu consigo a pensar que no
meio do oceano talvez não estivesse a chover. Ele gosta de imaginar que todas as
chuvas são feitas de lágrimas, e que triste é a sua sina, bem diferente de
Marília! Ela faz sempre o que quer, procura a felicidade em todos os recantos
da vida. Uma vez confessou-lhe, sem lhe falar, que vivia todos os segundos como
se fossem intensos momentos de amor.
Marília tem os cabelos enfeitados
com grinaldas multiflores e o pescoço decorado com colares perfumados de
violetas, dálias e açafrão. O corpo da irmã cheira a essências de óleos raros, e
na sua pele macia o amor acaba sempre por lhe saciar a sede de beleza. O menino
poeta seria até capaz de matar por ela.
Enquanto cai, a lua desce
do céu ao seu lado, o tempo passa e ele só deseja voltar a ver a irmã, é já só
nisso que ele pensa.
- Marília, salva-me! Se não me ajudares jamais
nos encontraremos...
Ela está presa dentro da
cápsula hermética no interior do funil voador. O estranho objeto guarda o
sorriso da irmã, guarda o seu corpo e goza o prazer ditoso de lhe abrir as
portas ao pensamento para gáudio de deuses felizes que num futuro próximo os
possam ver e escutar. Luminoso é o seu doce sorriso que nem esses deuses conseguem
igualar.
Os mochos que acompanham o
voo do poeta descem pelo interior de uma nuvem que os confunde e lhes enevoa o
olhar. Não ouvem mais. O menino continua a cair numa placidez febril, fica pálido
e sem ar, um frémito o abala, quase morre, treme o corpo abandonado da ave em
que se transformou.
Marília está agora igual
aos deuses que a raptaram, igual àquele ser meio luz, meio homem, que vai
operando os comandos sentado junto ao casulo onde a mergulharam. Está
consciente a boiar nesse líquido espesso e doce, inclina o rosto e tenta escutar,
e quando o vê, sorri. Provoca-lhe desejo, isso mesmo, um desejo tão forte que
lhe faz bater o coração luminoso no peito.
Ela vê o irmão poeta num
instante apenas, vê o menino cair do céu, em forma de mocho, a quem todas as
palavras abandonaram. Daquele lugar não consegue fazer mais do que olhar, e a
língua quase se parte com os seus gritos. Debaixo da sua pele, no mesmo
instante, começa a arder um fogo sutil que a queima por dentro, os seus olhos
veem, os ouvidos zumbem e o líquido onde está mergulhada fica mais verde que as
ervas, e ela fica quase já tão morta como antes parecia.
A mais bela coisa do
mundo, para aqueles mochos alienígenas, é poderem ajudar os humanos na compreensão
da sua forma não eterna de existência.
Marília, a sem igual em formosura,
achou o Amor muito cedo, e muito cedo aprendeu a amar e a seduzir. O ser
iluminado abre a campânula depois de a esvaziar do líquido esverdeado e doce
que ainda se encontrava no seu interior. O ruído dos passos húmidos de Marília ecoam
agora pela nave, o brilho de seu rosto refletido no rosto do ser que a
libertou.
O Amor.
O Amor agita todos os
espíritos da nave afunilada, os dois amantes lembram-se que ali nunca se tinham
amado, e depois deste dia restará outra lembrança. Marília amou-o para ser libertada
daquele lugar, errante esvoaçou ao encontro do irmão antes que ele caísse no
meio do bosque e acabasse de ser antes da Lua se pôr.
A lua já se pôs, o tempo
fugiu, fugiu o tempo, e eles ficaram deitados naquele mar de verde, com as mãos
meigas entrelaçadas, os dedos entrelaçados como ramos de abeto, e as coroas de
grinaldas floridas espalhadas em seus cabelos.
Agora estão felizes a acolher
mais uma manhã, doce manhã.
Lá em cima, no mais alto
ramo do maior dos castanheiros, os mochos observam os irmãos antes de se esconderem
no seu interior. Sabiam da existência daquele lugar e sabiam da existência destes
irmãos antes de decidirem viajar.
- Marília, porque não
falas e só escutas?
Quando a imagino, é tal o
gosto que em minha alma sinto que o corpo inteiro se me arrepia. Fogem de mim todas
as cores, respiro a custo, e penso no seu rosto acaso ela existisse. Hoje a
idade embranquece-me os cabelos e começa a fazer secar o meu corpo. Sou apenas eu,
mais ninguém, órfão das mesmas memórias impossíveis de partilhar. Irmã imaginada,
companheira bem amada, estes mochos querem levá-la para longe de mim, eu que a adoro
mais do que tudo, e o meu coração apaixonou-se pelo seu sol e pela sua imensa beleza.
É igual aos deuses que agora me pedem para se sentarem a seu lado. Eu sento-me com
ela, sou eu quem melhor consegue saborear a sua voz e as delícias do seu sorriso
que me derrete o coração. Mal vislumbro o seu rosto, embarga-se logo a minha
voz, e os olhos ficam cegos num repente. Se a vejo agora, tremo e transpiro, fico
estático até a relva me cobrir, e vejo-me verde, tão verde como a erva onde caí.
Só por acaso é que não morri.
Mergulhada com todo o seu
corpo naquela água clara, Marília vestiu-se de branco e de púrpura. Ficou igual
a um finíssimo bordado.
Antes da morte, antes da vida,
a morte aquática assim lhe acontecia como um bem. Um dos “estrangeiros” aproximou-se
e ofereceu-se para a amar antes dos outros. Eles preferem fazer reviver assim as
memórias mesmo a quem nunca antes existiu.
A Lua. A formosa lua volta
a esconder o seu rosto brilhante. Foi ela quem acompanhou a queda do menino poeta
antes da irmã chegar.
- Tive medo que tu pudesses
sentir ciúmes da lua. O nosso pai está sempre a dizer que os ciúmes são bem capazes
de o matar, e ele de matar por causa deles.
O homem futuro que Marília
tinha diante de si era muito frágil, era inocente e infantil. Escutou-lhe a voz
doce, adorável, e isso fez com que ficasse mais verde do que a erva. Sentiu que
ia morrer.
- Um jardim. O teu cabelo
é como um jardim…
Do bosque agora gracioso,
a luz matinal começava a escorrer na paisagem como se fosse um sonho ainda por realizar.
- A tua coroa de grinaldas douradas derrama outra
despedida, e eu odeio quando me dizes adeus. Hoje tive um sonho horrível, Marília,
um mocho com olhos vermelhos acordou-me com os seus gritos, e perguntou-me se eu
tinha vontade de morrer. Por entre a chuva de lágrimas que depressa começou a cair,
afastou-se de mim, dizendo que todas as vidas são finitas, e que também eu, um dia,
deixaria de existir. Eu respondi-lhe: “Vais ver, tu vais ver o que te vai acontecer
assim que eu contar tudo à minha irmã”. E foi então que eu desejei que fosses real,
e que terminasse o meu lamento. Escutei os teus passos do outro lado da parede.
Tinhas ali deixado um pequeno sinal da tua existência, no chão do corredor, junto
à porta do meu quarto.
Assim eu me lembrei de ti
pela primeira vez: “Tu bem sabes como te amo”.



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