14 - MEMÓRIAS DE ALBANO




Ninguém em Lavinhos ouviu alguém falar acerca de um urso. Marília abriu a porta de casa e foi até à cozinha. Começou a aquecer água para fazer um chá com as ervas que recolheu. Colocou um pano de renda branca em cima da pequena mesa redonda de madeira, um bule, dois pires, duas chávenas, uma pequena taça com mel e uma colher. Colocou a água numa panela e acendeu o lume onde a colocou para ferver. Ela sabe que o urso não veio atrás de si, mas isso não importa pois se ela o sente, é como se a tivesse acompanhado, veio com ela do passado para a visitar e ela decidiu oferecer-lhe um chá. A ideia de levar o animal para casa pareceu-lhe boa, e talvez a vizinhança não se assustasse, talvez Lavinhos inteira não falasse disso por muitos anos.
Marília teve a ousadia de levar um bicho perigoso para o coração da aldeia, e para dentro de casa dos pais, e para o meio da cozinha, e ofereceu-lhe um chá de ervas que adoçou com mel e que ambos beberam em silêncio. Ela pensou que isso não faria mal, o animal sentiu-se um gigante entre as paredes da casa que começaram a ceder ao seu tamanho e movimentos. Antes que alguém pudesse dar conta da sua presença, ela ajudou-o a sair com muita delicadeza. O soalho rangeu, o teto ficou danificado, o chão da sala ficou marcado com as garras do animal que saiu de casa sem olhar para trás. Pelo caminho encontrou e cheirou os cães de Lucas pastor, que ladraram quando o viram partir. Ainda antes de se embrenhar na floresta, o animal sentiu o estômago a andar às voltas e teve de vomitar. O chá estava demasiado quente e ele, que nunca tinha bebido nada assim, ficou indisposto com a oferta da amiga.
Nessa madrugada Marília deitou-se no chão em cima das marcas deixadas pelo animal e não dormiu. Passaram-lhe milhares de coisas pela cabeça, coisas de gente e coisas de bichos, coisas sagradas e profanas. Os cães de Lucas pastor ladraram e uivaram o resto da noite, e os olhos dela abriram-se e viram a toca onde o amigo se anichou.

O padre Albano acordou com o barulho dos cães a uivar, benzeu-se uma dúzia de vezes a agradecer a dádiva de estar vivo e de ainda não ter pecado nesse dia. Pensou que o Senhor pede para não julgar, pensou que o Senhor pede bem mais do que isso e que talvez seja altura de deixar de fazer o trabalho de Deus daquela maneira tão falhada. O prior sabe onde tem guardada a arma prateada e sabe que, de quando em vez, sempre que os cães o chamam de madrugada, a ideia de pôr fim à vida regressa tão resplandecente como a imagem do Senhor. Um gesto simples seria tudo o que necessitaria para poder descansar, a igreja ficaria para depois, os crentes e devotos, o rebanho, os sacramentos, mas depois surge a imagem do Senhor e a Virgem Maria, sempre de olhos postos em si a fazer-lhe desaparecer o disparate da cabeça. A arma está guardada na gaveta da cómoda mesmo ali ao lado junto à outra parede do quarto. Os Santos dos altares afirmam que ter medo não é ser palerma, e o Albano não era palerma quando, em miúdo, o pai lhe fazia as coisas monstruosas que nenhuma força do mundo ainda lhe conseguiu apagar da memória. Não poder ser palerma, seria palerma se perdoasse esse pecado hediondo a seu pai, ovelha tresmalhada, a mais negra de todas as ovelhas do Senhor. O tarado fez bem em morrer novo, morreu na igreja que era o lugar para onde corria aos domingos para limpar os seus pecados. O pai do Albano deixou de ser real há muito tempo, porque ele sabe que o pai não era uma pessoa normal, ninguém normal faz aquilo que ele lhe fez.
- Prometo Albano, esta é mesmo a última vez…
Palavras gravadas a ferro quente na sua memória, e ele nunca mais as conseguiu apagar. Os pensamentos doces têm espinhos, e essa sempre foi a coroa de Albano, a quem o pai dizia que tinha mudado, e depois que ia mudar, e depois não mudava e ameaçava-o com tudo o que havia de afiado lá por casa. Dizia-lhe que ele seria igual a si, e que não era preciso causar tanto reboliço.
Ninguém consegue salvar o mundo.
Albano encontrou em Deus a salvação.

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