13 - SEI QUE NÃO EXISTO NESTE POEMA



Marília tem saudades de um lugar longe de Lavinhos, uma floresta maravilhosa onde dançou com um urso negro que lhe encostou o focinho à cabeça enquanto girava com ela agarrada aos braços. A jovem sentiu-se mais protegida do que nunca, o calor do corpo do animal aquecia-a e o seu bafo quente era tudo o que necessitava para se aconchegar. Ele acariciou-lhe o rosto sujo de lama com as suas gigantescas patas, com grande delicadeza, e os dois sorriram alegremente, Afastaram-se um do outro, a bailar, com os braços no ar e os joelhos fletidos, rodando as ancas e a cabeça num bizarro pas-de-deux. Acabaram os dois por cair exaustos, de costas no chão. Uniram as testas e tocaram-se nas mãos. O urso olhou para ela e levantou-se para lhe trazer um favo de mel que ambos partilharam deitados no chão da montanha.
Marília desejou que o urso pudesse ser uma pessoa. Estava a adorar estar ali deitada com ele perto de si, e fechou os olhos para melhor imaginar o animal com rosto de gente. Seriam amantes, teriam filhos, correriam de mãos dadas pelas serranias todas que conseguissem visitar. O urso lambia as garras com satisfação e quando o mel acabou levantou-se de repente, virou-se para Marília e começou a rugir. Ela tinha comido um favo de mel que não lhe pertencia, e apressou-se a pedir-lhe desculpa pelo seu atrevimento. Tinha fome, e a sua fértil imaginação causou-lhe uma espécie de embriaguez momentânea que a impediu de raciocinar. Voltou a pedir desculpa ao urso pardo que deixou de ser o mancebo que ela idealizara, e explicou-lhe que nunca se tinha sentido assim tão protegida por um outro ser vivo como acabara de lhe acontecer.
O urso deixou de ser prestável, voltou a ser o animal selvagem que sempre foi e Marília teve medo pela primeira vez. Ele sorriu ao perceber nela uma fragilidade que não conhecia, avançou na sua direção e sentou-se de novo no chão para fazerem companhia um ao outro. O bicho colocou a pata direita sobre o ombro de Marília e ofereceu-lhe outro favo de mel. Desejou que ela pudesse ser um animal, um urso igual a si. Estava a adorar estar ali abraçado a ela, sentado ao seu lado, e fechou os olhos para melhor imaginar a rapariga com focinho de ursa. Seriam amantes, teriam filhos, correriam de mãos dadas pelas serranias todas que conseguissem visitar.
Marília deixou de procurar respostas que a ajudassem a compreender a atitude do urso. Era esperta demais para queimar o seu tempo. Voltou a pedir-lhe desculpa, disse-lhe o quanto apreciava sentir-se assim tão acarinhada. Ali no coração da montanha tinha tudo o que queria, e um dia qualquer, quando a idade lhe pesar nas pernas e nos ossos, as árvores da floresta ensinar-lhe-ão a viajar de novo até ao passado para nele conseguir vislumbrar o seu futuro.
- Urso, tu és o meu homem! Se não te tornasses tão insensível durante as madrugadas, as nossas festas seriam perfeitas. Quando será que nos voltaremos a encontrar?
O urso e Marília caminharam de mãos dadas até ao interior da floresta, até bem perto da gruta onde o bicho costumava hibernar.
- Urso, o que vais fazer este fim-de-semana?
Ela sabia que o animal iria ficar muito quietinho, anichado no interior mais profundo daquele lugar, e quis de novo vê-lo com rosto humano para o beijar, e quis o animal de novo vê-la como ursa para os dois se fecharem lá dentro todo o inverno. O Urso e Marília beijaram-se sem poder sentir amor verdadeiro pois não eram da mesma espécie, os seus corações tinham sido construídos de maneira diferente, mas foi ela quem ficou mais triste ao vê-lo desaparecer. Ficou pequenina quando as portas da gruta se fecharam de vez para esconder o imenso animal.

Lua cheia.
A noite está serena.
Os mochos escolheram-na para voar.
O menino poeta voa pela primeira vez com asas de mocho alienígena e ainda não se sente bem na nova pele. Sabe quase nada acerca destes seres bizarros cujas cabeças se transformaram em mochos iguais a ele. Vai apreciando a noite sem pensar no passado ou no futuro, mas agora já sabe que irá morrer, e no passado ainda não sabia, na verdade, o que ele sabia é que se sentia sozinho vezes demais.
- Voa, esta noite tens amigos com quem partilhar novas experiências. Sorri, aprecia tudo isto que vês aqui de cima, não penses tanto, deixa que o vento te leve na direção exata do seu sopro.
O poeta tinha um palpite, sabia que mais cedo ou mais tarde iria ter uma experiência como esta, uma aventura tão absurda que até o Toninho Faneca teria dificuldade em acreditar. Ele tenta descer mas não consegue, as correntes de ar elevam o bando de mochos cada vez mais alto, até ultrapassarem a altura das nuvens brancas onde o frio é intenso. Ali em cima é quase invisível, ali de cima talvez consiga descobrir o acampamento de Marília.
Os outros pássaros são simpáticos, comunicam-lhe as técnicas de voo e a experiência passou a ser mais natural. O menino deixou de estar preocupado ou assustado com a situação, mas continua sem compreender o que lhe está a acontecer. A mais de cinco mil metros de altitude atreve-se a mergulhar de cabeça na neblina gelada do seu presente, com as asas de penas duras.
O menino poeta continua a esboroar a parede do quarto onde ainda há pouco tempo soube que não era imortal, estará sempre a abrir buracos na parede até que ela chegue num dia qualquer.
As asas ficam sem forças, o corpo pesado cede e ele cai de maneira descontrolada. Vê anjos, vê nitidamente um anjo que o tenta salvar.
- Marília! Salva-me Marília, ajuda-me, não é assim desta maneira estúpida que eu quero morrer…
Os mochos alienígenas riem-se do menino poeta que não soube controlar as asas. Naquele ar rarefeito é complicado manter a estabilidade dos voos, e é normal isto acontecer a pássaros inexperientes. O menino poeta tinha subido bem alto depressa demais.

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