12 - QUANTAS HISTÓRIAS TEREMOS PARA CONTAR?
Madalena não sabe o que é
o ciúme que passa ao lado dela mas não de Raúl. Ela imagina mil bombas lançadas
dos céus que ameaçam destruir-lhes a casa, e eles ali presos ao chão. Jamais sairiam
apressados deste lugar onde se abraçam. Os dedos de Raúl tocam delicadamente no
seio de Madalena enquanto os dois se amam. Sentados, beijam-se como se o amanhã
fosse impossível. Ela escuta o barulho das mil bombas que não caem lá fora nas
redondezas de Lavinhos, sente-as cada vez mais perto. A morte dos amantes pode
acontecer a qualquer instante, mas ela continua sentada ao colo de Raúl que a
sente mais viva do que nunca. Abraçados, beijam-se com volúpia, deixam marcas bem
visíveis vincadas na pele e nas carnes brancas, e nas memórias de ambos crescem
árvores de peles suadas que dissertam poemas de escritores ainda por nascer.
- Acreditas em mim, Raúl?
Acreditas em mim e no meu amor?
Ele cai, exausto, as
costas sangram e pintam pequenos esses na madeira do soalho.
- Não, Madalena! Podia
dizer-te que sim… podia mentir-te… mas ainda não acredito em ti. O escritor que
nos inventa conhece este demónio que implantou na minha cabeça, um ciúme
estúpido e gigantesco é como lhe chama, e agora vive em mim.
Podia ser apenas mais um
jogo da vida a acontecer naquela pequena casa de Lavinhos onde mochos de olhos
vermelhos, espíritos do passado e do futuro, se entretêm a espreitar pelas
janelas durante as longas noites de inverno. Pode ser apenas o menino poeta a
imaginar uma nova história para contar ao Toninho, mas talvez seja ainda cedo
demais para lhe contar esta aventura… pode ser a sua imaginação delirante a
construir estas falsidades enquanto escuta os ruídos que chegam do quarto dos
pais antes de sair de casa, atrás da irmã, no princípio de mais uma madrugada.
Pode ser o medo de morrer que ele nunca sentiu antes e que o fez crescer mais
depressa do que desejara, pode ser tanta coisa, e também coisa nenhuma.
A roupa dos amantes está
espalhada por toda a casa.
O mocho ainda não
desistiu de espreitar, mas os ruídos que lhe chegam da floresta dizem-lhe que é
hora de regressar. Esconde a cabeça redonda, mais uma vez, para que os amantes
não o consigam perceber, antes de partir. Espreita mais um pouco, observa mais
um pouco, memoriza o que se passa ali dentro daquela casa mais um pouco.
Madalena levanta-se, ama
Raúl. Raúl fica deitado no chão a olhar para ela, dominado pelo ciúme e a
paixão, dominado por uma inquietude tão perversa que até do padre Albano já
sentiu ciúmes, e de Lucas pastor…
- Porque olhas assim para
mim, homem, com esses olhos de cão de caça?
Raúl não lhe responde,
não diz nada com palavras, só com os seus não gestos e o olhar. E depois acaba
por lhe sair a estúpida resposta.
- Não gosto que vás à
missa, não gosto da maneira como o padre Albano olha para ti! Ele segue-te, eu
já o vi a ficar todo corado quando te aproximas para comungar. Disseste-lhe
alguma coisa para ele ter ficado assim, louco por ti?
Madalena esboça um
sorriso, e depois fica séria ao entender que Raúl não está a brincar.
- Que utilidade teria
para mim um padre nas artes do amor?
O mocho acha inútil
continuar a escutar o que ali se passa, talvez o acontecimento possa ser útil
no futuro, mas agora tem mesmo de partir.
- Vou enfrentá-lo um
destes dias! Vou ter mesmo de lhe chamar a atenção…
- Eu acho que endoideceste
de vez, Raúl. Dessa tua cabeça saem coisas cada vez mais disparatadas. A
conversa já não tem graça nenhuma. Que merda de ideia a tua, homem, mas que
merda de ideia a tua. É isto que te passa pela cabeça depois de nos termos amado
como dois loucos?
Da próxima vez talvez uma
ou duas bombas acertem em cheio no coração de Lavinhos, talvez a casa seja
destruída, os dois amantes serão transformados em poeira eterna, e com eles o
ciúme de Raúl. Os fotógrafos de guerra registarão esse instante e a loucura dos
homens será perpetuada nas primeiras páginas dos jornais.
- Onde vais tu, Madalena?
Porque te levantaste? Volta para junto de mim… não ligues ao que digo. O ciúme
envenena-me as entranhas da alma, mulher, e se tu garantes que não aconteceu
nada com esse Albano,… matá-lo-ia, cortava-lhe os colhões se…
O universo do menino
poeta está cada vez mais desalinhado. Os mochos que chegaram do futuro vieram
mostrar-lhe como é a vida de um pássaro alienígena. Marília já o sabia há muito
tempo, mas nunca se atreveu a contar-lhe simplesmente porque as coisas não
aconteceriam com o irmão da mesma maneira.
- Não te preocupes, bate
as asas devagar, sente o ar a passar por elas, finge que és de novo um mocho
alienígena. Lembras-te, ainda te lembras da última vez que isto te aconteceu?
O menino poeta está capaz
de desmaiar de emoção. Finge não ter medo, mas está pálido e custa-lhe
respirar.
- Ótimo, é isso mesmo,
bate as asas devagar, mais devagar... não tenhas pressa, não olhes para baixo,
resiste a olhar para o chão. Se sentires a boca seca, abre ligeiramente o bico
ao passares pelas nuvens, a névoa refresca e sentir-te-ás muito melhor. Voa…
não penses em nada enquanto voares.
O padre Albano sabe que
as pessoas vão ter com ele muitas vezes sem saber porquê. Mas há sempre uma
razão qualquer, uma palavra que precisam de escutar, uma confissão que têm para
fazer, um demónio qualquer que querem fazer desaparecer. Ele conhece todas as
pessoas da paróquia e sabe de cor do que padecem as suas almas, só não sabia a
razão exata porque naquele dia o Raúl decidiu visitá-lo. O homem não tem como
hábito ir à missa, são até mais as vezes que ele falha ao Senhor do que aquelas
em que a Paz está sempre com ele, mas Albano adivinhou que aquela não era uma
visita qualquer. O Senhor escreve direito por linhas tortas, a Luz da Sua
presença é forte e lidera até a vida dos mais desatentos e tresmalhados, como é
o caso do pai do menino poeta.
- Sei tudo a seu
respeito, homem! – disse Albano.
- Acredito que sim, padre.
– respondeu-lhe Raúl – A mim custa-me muto acreditar que os padres consigam
manter-se puros e castos a vida inteira. A si deve ser difícil manter os votos,
não é verdade? Diga-me, padre Albano, porque é que cora com tanta facilidade
sempre que a minha mulher se dirige ao altar para comungar?
O prior ficou da cor da neve, gelou por dentro
e por fora.
- Saia, por favor, saia
imediatamente de minha casa.
Um mocho andava por ali a
pairar no escuro, por cima da casa do prior, como um diabo, de olhos vermelhos,
a circundar, à espreita. A chuva começou a cair, e a temperatura da atmosfera. O
padre chegou-se à janela para ver Raúl afastar-se, sabendo que o homem jamais
lhe perdoaria a falha que o seu rosto confirmou. Abriu a garrafa antiga de
brandy francês que o senhor bispo lhe ofereceu aquando uma peregrinação a
Lourdes, e encheu o copo de cristal até acima. Levou-o aos lábios, bebeu tudo
de uma só vez até as lágrimas lhe queimarem a vista.
- A morte é a única coisa
verdadeira que tenho como certa. Sentir este amor é para mim tão proibido como
certa é esta vida em que morro a cada dia, seguro de que jamais o poderei viver.
A morte afligiu o menino
poeta com olhos assustadores. Marília não estava em casa na noite em que isso
aconteceu. A irmã do poeta nunca estava em casa quando ele mais precisava, e
aquela bomba que lhe caiu em cima marcou-o profundamente. Ele nunca mais dormiu
em paz, o mundo tinha-se transformado, cresceu, ficou imenso e perdeu cor. Aquela
bomba causara mais estragos do que ele supunha, afinal ele era somente mais uma
criança a aprender a crescer dentro da história de outro escritor.
A porta da rua abriu-se e
Marília entrou.
Nunca dizia de onde vinha
ou para onde se tinha escapado.
Os pais só ficavam
contentes porque ela regressava, isso chegava.
Trazia folhas agarradas
aos pés e coladas na roupa, a natureza vinha sempre presa à rapariga para
verificar se ela era fiel ao segredo que guardava. Ela era cautelosa, nunca
falava.
Se ao menos as folhas e as
raízes falassem.
O menino poeta pegou num
minúsculo ramo que a irmã deixou cair no chão do corredor, junto à porta do
quarto. Voltou para a cama e deitou-se com ele apertadinho na mão direita, muito
apertadinho, a desejar poder escutar o que ele lhe tinha para dizer.
Quantas vezes terá vivido
o menino poeta esta mesma história, viver todas estas vidas sem nunca morrer? Ele
sente que esta talvez seja a primeira, e que outras se seguirão. A parede que
esfarela não lhe dá qualquer resposta, nem os sonhos, nem os pais que se amam e
fazem barulhos no chão da sala que ecoam pelas paredes de xisto da habitação. Deitado
na cama imaginou que a irmã Marília poderá ser uma invenção sua criada para se
proteger destes mochos alienígenas que não param de o perseguir.
Viver todas as vidas e
nunca morrer.
- Para, Raúl… não voltes
a dizer disparates, homem. Tu nem sequer és muito religioso, acreditas no que
eu te digo só se quiseres, mas não tens razão nenhuma para teres tantos ciúmes.
Eu amo-te, essa é a verdade, e rezo bem mais do que tu para que nunca nos
deixemos de nos amar assim.
O menino poeta não queria
ter medo deste mundo onde acordou depois de ter morrido mais uma vez.
- Mãe, pai… posso
deitar-me no meio de vocês? Estava a ter um sonho muito mau…
No meio deles, naquela
noite, era o único lugar do mundo que fazia algum sentido. O deserto era o restante
espaço que ficava fora dali.



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