03 - A NAVE DO TEMPO



03

Desde que os impérios se criaram, a violência e a guerra são uma constante, e a fome e a miséria nunca se apagaram. A humanidade, que teve de aprender a navegar em mares de sangue e destruição, consome-se e evoluí nestes caminhos atormentados e enlouquecidos, obedecendo a incompreensíveis leis superiores que lhe são comunicadas pelos diversos Criadores. A Terra, mutante em permanente transformação, agita-se e sofre na pele as constantes agruras dessas mutações. Depois do Big Bang avassalador, nenhuma construção permaneceu adormecida, silenciosa, ausente ou meditativa. O Tempo, que outrora existiu inteiro e unificado, acabou fracionado em minúsculas partículas confusas. O seu valor tornou-se ínfimo, consumido em nadas efémeros num frenesi alucinante.

Uma Nave Mãe, viajante entre tempos, encontra-se estacionada num vazio inócuo algures entre a órbita geoestacionária e a camada mais alta da exosfera, um vazio com altíssimas temperaturas onde capta energias vitais para o seu funcionamento. Os seus novos motores orgânicos usam essa dádiva para se espreguiçarem de prazer.
A Nave regressou à Terra presente após ter sido sujeita a um longo processo de restauro que demorou dezenas de milhões de anos. Alteraram-lhe os obsoletos sistemas de navegação, instalaram-lhe novos programas de vigilância e de monitorização, mudaram-lhe os reatores, reestruturaram-lhe as entranhas e todas as ligações das estruturas internas que regulam os complexos sistemas que lubrificam as turbinas. Limparam-lhe as tubagens e grande parte da fuselagem, e substituíram-lhe a totalidade das válvulas de alimentação.
As janelas da Nave abrem-se e fecham-se, como guelras grandes e pesadas, provocando estranhos ruídos numa orquestração quase musical. O gigante de metal orgânico invisível está pintado de negro luminoso, e nele cintilam torres brilhantes que se alimentam da energia solar. Tudo funciona através de rigorosas rotinas geridas por uma sofisticadíssima inteligência artificial.
A Nave paira lá no alto, nesse vazio inócuo, sem que ninguém se aperceba da sua existência. Está atenta, expectante, pois acabaram de chegar novas mensagens aos seus gigantescos ecrãs azuis onde milhares de luzes amarelas começam a cintilar. As paredes arredondadas da imensa sala vazia de comandos iluminam-se e o aparelho começa a girar. O mundo, lá em baixo, transforma-se, as árvores desaparecem, os glaciares mergulham e dissolvem-se nas águas salgadas dos oceanos, os pássaros migram à sorte dos ventos, os continentes derivam e movimentam-se sem razão aparente, o planeta inteiro cumpre a misteriosa tarefa que lhe foi comunicada.
O objeto voador, que se assemelha a um estranho funil cinzento, rodopia na vertical por cima de todas as coisas. A coisa afunilada desapareceu.
A Nave voltou atrás no Tempo para rondar paragens longínquas ainda desabitadas pelo homem. Ainda agora pairava lá no alto, bem perto daqui…, mas neste exato instante a Nave Mãe já não se encontra ali. 
O dia acordou decorado com um sol resplandecente.
Marília está deitada a olhar para as montanhas num pequeno tronco de árvore quando a cordilheira começa a agitar-se. O sol torna-se ainda mais brilhante, e ela sente a terra a tremer no exato instante em que a Nave Mãe a engole através de um fino feixe de luz. A rapariga deixa para trás tudo o que conhecia, e sem dar contar, as roupas que agora veste são outras bem diferentes das suas.
É muito estranho este lugar onde Marília acordou no mesmo instante do tremor de terra que jura ainda estar a sentir. Ela apareceu fechada, deitada numa espécie de campânula envidraçada que pisca de quando em vez. A transparência da grande tampa de vidro começa a esfumar-se e o casulo enche-se lentamente de uma água tépida e perfumada que depressa cobre Marília da cabeça aos pés. Com o corpo preso de movimentos, ela tenta colocar a cabeça na única posição capaz de lhe garantir a respiração. As narinas e a boca ficam milimetricamente à tona de um líquido espesso e esverdeado que a cobre. São mais de mil os pensamentos que lhe afloram à cabeça enquanto um oxigénio adocicado lhe invade os pulmões. Corajosa, mantém-se extremamente concentrada na sua respiração e vai tentando controlar a ansiedade evitando os movimentos. Está mais tranquila a boiar no líquido viscoso e quente que a mantém na horizontal. Um espaço de alguns centímetros é apenas o que a separa do topo da vidraça do casulo onde tenta sobreviver. Tem os olhos fechados enquanto respira, e os poucos sons que lhe chegam são abafados pelo líquido onde se encontra mergulhada. Os estalidos que escuta de quando em vez podem ser provocados pela Nave mas também podem estar a ser gerados dentro de si.
Este lugar estranho só pode ser uma ficção gerada pela sua imaginação que  hoje resolveu torná-la uma prisioneira de si mesma.

Mais uma tarde chega ao fim no lugar da aldeia amarela. Lucas pastor regressa a casa depois de mais um dia de trabalho. O calor extremo que se alongou para fora de época comprometeu as terras de pastoreio. A seca, que parece não ter fim, traz os animais magros e tristonhos a mastigar pasto duro e quebradiço.
O importante é que chova, que caia água meses a fio, que os leitos dos rios se encham de novo e corram com os caudais devidos da nascente até à foz. O estupor da seca é uma maldade pela qual ninguém merecia passar por estas paragens.


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