02 - VIVER NO ALTO DOS TELHADOS
02
Marília aprendeu a
crescer sozinha num lugar escondido no coração da floresta, enquanto os lobos
uivavam histórias que ela se entretinha a adivinhar.
O frio, intenso e
cortante, cobre o corpo da rapariga, que corre sem descanso por não apreciar a
quietude, e depois sobe às árvores e fala com as nuvens enquanto se perfuma com
gotas de orvalho. É de madrugada que tudo faz sentido. Mal a manhã acorda, tudo
deixa de fazer sentido, e o que ela vê revela o vazio que cobre a terra e o
céu, e todos os lugares que conhece se transfiguram.
A pele de Marília é da
cor do luar, as suas pernas magras são fortes como troncos de árvores e os pés
parece terem sido plantados no chão do bosque, naquele exato lugar onde
aprendeu a crescer. É nestes montes e serranias que ela existe, sempre de
noite, nunca em cima de telhados como o parvo do irmão poeta, que julga ser um
gato preso entre tempos, e corre atrás dela para esses lugares absurdos, sem
nunca a conseguir encontrar. Qualquer dia ainda morre a tentar apanhá-la. O “poetinha”,
que se diz sentir preso entre dois tempos, refugia-se demasiado num passado que
talvez nunca tenha acontecido, viaja vezes demais, até quase perder o norte e a
noção de quem é.
Marília ama a montanha,
desvanece-se nas neblinas e nos perfumes das águas frescas que correm nos
riachos, que descem pelas veredas desde as nascentes, e funde-se com as
encostas esculpidas pelo vento e pelo tempo. Sabe que é aqui que irá morrer,
aqui aprendeu a ver e a escutar, aqui aprendeu a pensar e a tirar partido dos
espaços exíguos e claustrofóbicos onde, de início, gostava de se esconder. Na
montanha encontrou a eternidade conforme a idealizou, cabe inteira numa página
vazia de uma história qualquer, uivada pelos lobos que a ensinam.
O irmão poeta vive num
retângulo maior e mais difícil de preencher. Não consegue encontrar palavras,
está ausente entre pensamentos desinteressantes e frases sem inspiração.
Sente-se cada vez mais perdido, enclausurado no seu quarto na casa da aldeia,
no centro das mesmas paisagens onde imagina a irmã, que nunca consegue acompanhar.
Se voltar a adormecer, pode ser que não consiga acordar. O poeta tem receio de
não ser capaz de acordar, por isso não dorme, fica cada dia mais cansado, todos
os dias fica mais cansado da mesma estranha maneira. Talvez o cansaço seja mera
ilusão, talvez não seja má ideia começar a escrever o seu livro de loucura a
partir deste acontecimento, falar das memórias dos pais e da irmã Marília,
falar o menos possível acerca de si, falar muito mais acerca dos outros, e
depois fugir antes que este seu pequeno nada o acompanhe e cresça e o faça
repensar todas as coisas antes de enlouquecer.
No pequeno quarto onde se
encontra, é difícil raciocinar. O menino poeta inventa espaços abertos na
parede para melhor conseguir meditar. Sem esses desenhos, as suas construções
vivem em permanente aflição. As suas primeiras poesias talvez tenham começado nesta
parede de xisto coberta de caliça. Os continentes ali abertos terão sido as
primeiras folhas de seus poemas, os lugares primeiros onde as suas estrofes
acabaram por acontecer.
O tempo em que esteve
preso naquele quarto era o passado que ali se refugiara numa lógica
impossível, antes de uma outra qualquer coisa ter acontecido, numa completa
ilusão dos sentidos. O menino poeta julgava-se prisioneiro nessa imensidão de
memórias, escondido do mundo, as pernas pesavam-lhe como duas âncoras, os pés eram
as raízes por onde lhe chegavam ideias absurdas que depois encaixava na parede,
eram pedaços de passado, sombras fugidias de coisas inexistentes.
*
O vento e a chuva, de uma
beleza ímpar, fustigam os bosques e os pinhais. As copas das árvores ondulantes
assemelham-se a um imenso mar revolto que reorganiza a geometria das paisagens,
e que redefine a alma errante de Marília. O oceano verde é capaz de a acalmar,
mesmo quando ela continua a galgar veredas e falésias escarpadas para se
mimetizar com a natureza enraivecida… mesmo quando ensaia monólogos incompreensíveis:
- Antes que me fuja a
esperança e o raciocínio, antes que esta dor de cabeça constante e fina me
impeça de movimentar, levanto-me e corro. Doem-me as costas, suportam o peso
dos anos que não tenho, o peso das desilusões que enxergo para além das
neblinas. Vejo até para além do mar que nunca vi e sei o que de lá se apresenta,
é uma irmã gémea desta montanha que é minha, onde outras florestas crescem no
mesmo instante, e consomem-me de maneira igual tatuando-me a pele com marcas ardentes,
violentas, profundas, desenham estas tatuagens cinzentas que em mim pediram
para habitar.
Dois corvos voam lá
longe, bem alto, desorientados com o vento e a chuva, contudo conseguem chamar
a atenção de Marília que para de falar. Ela gostaria de se sentar com eles a
conversar, com eles pastorear rebanhos a vida inteira e discutir acerca do
pasto e das ovelhas. Os três passeariam pela serra, eternamente, de lá não sairiam,
por lá deixariam de envelhecer.
Marília sente a cabeça pesada,
ampara-a com as mãos, os pés negros da cor do carvão libertam-se em saltos, as
pernas alimentam correrias desenfreadas para continuarem a crescer, apesar das
dores, apesar de todas as dores que se soltam e que ali mesmo não cessam de
aumentar, implacáveis e desmesuradas.
O tempo passa devagar no
meio de tanta chuva, e ainda mais lentamente para o menino poeta que escreve
poesia na parede por não conseguir escapar-se dali. Sente-se angustiado naquele
quarto, agarra-se às formas estranhas que vai esculpindo, conforme pode, num
esforço tremendo para sobreviver.
O vento sopra com grande
intensidade. A irmã Marília deve tê-lo chateado imenso para ele se ter zangado
assim. Escolheu esconder-se do mundo que não a compreende, esconder-se por não
compreender o mundo, e só lhe nascem ideias que o menino poeta não entende,
ideias ridículas e estúpidas que não deviam acontecer. As suas memórias estão
todas erradas, são histórias de coisas passadas que carecem de validação. Ela
atravessa os bosques incessantemente à procura delas, e faz crescer as suas lembranças
com o somatório de todos esses equívocos.
A neblina onde ela julga
voar atiçou a coisa oblíqua em que se transformou, e nem a recente tempestade
onde deambula lhe trouxe a paz que almejava. Ao longe escuta o sino da igreja
da aldeia a tocar uma Ave Maria que logo ecoa num lugar remoto da sua memória.
Esteve sempre ali, ao virar da esquina, guardado, adormecido, num recanto que
Marília julgava apagado, para sua tristeza.
O menino poeta sente-se
incapaz de construir memórias contínuas do seu passado, e tornou-se difícil
conseguir visualizar esses momentos, mas aquela noite em que o medo o
atormentou para todo o sempre, aquela noite em que a irmã fugiu e se refugiou
onde nunca mais ninguém a encontrou, essa regressa sempre, e vem carregada de
lágrimas difíceis de enxugar.
O céu chorou com ele,
desorientado, sentia-se tão perdido como o menino poeta. Ele bem cedo aprendeu
que a passagem do tempo é uma inevitabilidade inóspita de dimensão poética,
trágica na sua comédia, cómica na sua tragédia, e que encerra grandes mistérios
nos versos que a caracterizam.
A Terra diz que é assim e
continua a rodar, com o poeta a pertencer-lhe, ele que não sabe como florir,
ele que perdeu Marília no princípio da juventude. Hoje vê-a, ou pensa que a vê
nesta espécie de falsidade onde agora habita, uma verdade que o vento teima em
lhe cantar para o ajudar a adormecer. É impossível relembrar todos os acontecimentos,
é tão difícil dominar a arte de os reviver.
O poeta deixa de esculpir
espaços a negro na parede do quarto, salta da cama a correr, galga o corredor
escuro até à porta de entrada da casa por onde sai num repente. Sem parar, sem
olhar para trás, pula o muro antigo de xisto semeado de musgo que separa a rua
da propriedade de Etelvina, a tia-avó materna, e que está mesmo ali, junto ao
limite da memória mais antiga da sua infância. Com a cabeça a andar à roda,
alcança o patamar da casa e sobe depressa pela escadaria acima, assombrado pela
tempestade. Com a agilidade de um símio, trepa pelas ombreiras das portas e das
janelas até alcançar o telhado onde se senta, ofegante.
Lá de cima consegue ver
tudo com clareza. Vê o pai e a mãe no chão da sala, despidos, amantes, abraçados
um ao outro, vê os avós, vê a irmã, vê a casa e a loja dos animais por debaixo
das divisões, vê o ontem, vê o dia de hoje, vê o amanhã, vê os degraus que
ainda tem de escalar para alcançar, de novo, a porta de casa. Vê o pastor e o
rebanho de ovelhas a avançarem em direção à serrania, vê o dia que vai nascendo.
É neste telhado que prefere não ter de crescer à vertiginosa velocidade da luz,
e depois, tudo o que vê, tudo o que julga observar, desaparece num ápice mesmo
em frente de seus olhos.
Agora, do alto deste
telhado, não é isto que o poeta vê, os seus receios tinham fundamento. Ele teve
de reaprender sozinho a vaguear entre os tempos, cobriu-se de lamas, de sangue
e de poeiras quentes sopradas dos desertos. A chama da escrita arde-lhe no
peito e todos os dias o faz, todos os dias pensa como um poeta, imagina os
beijos perdidos da irmã, vagueia pelo sabor dos abraços dos pais. Como tudo
passou num repente e se findou, em todos os versos os recorda e recordou. Todos
os dias viaja pelo espaço e pelo tempo que os separa, eliminando o supérfluo, o
irrisório e o inútil. Marília aparece-lhe do outro lado, sorridente, feliz por
ver o irmão, ainda que só em pensamentos impossíveis de concretizar, ainda que isso
só aconteça na história de um livro qualquer que ninguém virá a conhecer.
*
Despojados de existência
física, Madalena e Raúl continuam ausentes um no outro, ausentes delirando em
cada beijo, em cada carícia… os dedos dele a valsar nos seios da mulher, nos
mamilos humedecidos de saliva onde a auréola delineia a circular fronteira por
onde se entretém a passear a ponta dos dedos. Madalena recebe-o, puxa-o usando
as pernas e os braços com vigor, olha para o homem sem acreditar naquilo que vê,
sem acreditar naquilo que sente, a carne desfeita em forma de milagre à espera
que lhe desenhem significados. Os corações despedaçados por meteoritos palpitam
mais vingativos do que nunca. O vírus da paixão eleva-se para além das nuvens à
espreita do infinito onde o milagre acontece.
Abençoado milagre
acontecido na madrugada desse dia nefasto e distante onde tudo se transformou. Os
amantes erguem os braços em tentativas inglórias de alcançar esse infinito para
onde o pássaro voou.
Marília voou para a
montanha para se encontrar com os animais que lhe contam as histórias e vigiam
os pais durante as madrugadas. Quando o sino da igreja tocou a Ave Maria, ela soube
que era hora de partir para onde os silêncios escurecidos da floresta melhor se
conseguem escutar.
- O mocho foi-se embora,
Raúl, voou silenciosamente por cima da nossa casa enquanto descansávamos. Deste
conta do pássaro? Reparaste como era intenso e vermelho o seu olhar?



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